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Quando a notícia da instalação de Villegagnon chegou à Baía de Todos os Santos, pelo capitão de São Vicente, as autoridades não souberam medir a gravidade da situação, julgando ser mais um ato corsário e não que estivesse em risco o destino do Brasil português. Não se conhecem cartas de Duarte da Costa, mas de Francisco Portocarrero, de 11 de agosto de 1556, avisando à corte.(1) A notícia chegou à Bahia pelo capitão de São Vicente, Brás Cubas. Portocarrero desejou correr a costa, mas não obteve permissão do Governador Geral. Na corte, a notícia foi recebida com grande descontentamento. O embaixador em Paris, João Pereira Dantas, transmitiu os protestos de D. João III, mas o Rei de França, com habilidade, não queria manter uma política de rivalidade, mas não aceitava a doutrina do "mare clausum", pelos direitos portugueses às terras do Brasil. Duarte da Costa nada fez para combater os homens de Villegagnon e tudo leva a crer, que D. João preferisse que uma nova figura desempenhasse esta missão. A grande obra de formação do Brasil exigia mais que a defesa contra as ambições corsárias da França e a imposição da força ao gentio rebelde. Exigia uma administração que fizesse respeitar a autoridade do poder central e unificasse o vasto território, dirigindo-se para as Capitanias do Sul. Por Carta Régia de 23 de julho de 1556, foi nomeado Mem de Sá para Governador Geral das Capitanias do Brasil por três anos, e com possibilidade de continuidade no cargo enquanto D. João o desejasse.(2) Este seria um dos últimos atos de D. João III antes de fechar os seus olhos, em 1557, deixando a Coroa de Portugal com Da. Catarina, sua esposa e irmã do Imperador Carlos V, que governou Portugal durante a menoridade de seu neto D. Sebastião. Descendia Mem de Sá do ramo dos Sás de Pemaboa, distrito de Barcelos. Seu pai, o Cônego Gonçalo Mendes de Sá teve treze filhos, não se sabendo se todos eram filhos de Inês de Melo, dama fidalga, amásia do Cônego. Assim descreve Joaquim Veríssimo Serrão o 3o Governador Geral do Brasil: "Esta nomeação premiava um jurista que era desembargador da Casa da Suplicação e, desde 1532, fazia parte do Conselho Real. Oriundo de Coimbra, tinha como irmão Sá de Miranda, o grande poeta renascentista. Desde 1520 que era aluno de Artes, na Universidade de Salamanca, iniciando dois anos depois, os estudos de Direito Canônico. Em 1526 tinha seguido sete cursos, dois em Cânones e cinco em Decretais, conquistando o grau de Bacharel. Iniciou a licenciatura no Colégio Maior de Santiago e em setembro de 1528 terminou a graduação, fazendo o juramento a 27 de setembro, obtendo o grau de Licenciado em Leis. O 3º Governador Geral do Brasil era portanto um jurista de formação."(3)Além de ser irmão do grande poeta renascentista português, Francisco Sá de Miranda. Nos fins de abril de 1557 partiu de Lisboa o novo Governador e após tormentosa viagem de oito meses, chegou à cidade de Salvador, assumindo o Governo em janeiro de 1558, justamente quando os calvinistas partiam da Guanabara a bordo do navio Jacques. Instalado no Governo procurou socorrer a Capitania do Espírito Santo, onde o Capitão Vasco Fernandes Coutinho, estava envolvido com uma nova rebelião dos índios. Precisou dirigir-se a Ilhéus onde dominou outros focos de insurreição nativa. De Lisboa, escrevia a Regente Da. Catarina ao Governador, lembrando a necessidade de se dirigir ao Rio de Janeiro e se lançar no combate aos franceses. Mem de Sá sabia dos problemas em desalojar centenas de homens de uma Ilha fortemente guarnecida e pensou com cuidado no empreendimento, que poderia estar fadado ao insucesso, preferindo aguardar reforços militares da Coroa. As Capitanias do Sul, pediam socorro a Salvador, em face das ameaças dos franceses na Guanabara. O número de navios franceses que se dirigiam à Ilha de Serigipe crescia. A opinião dos jesuítas inclinava-se para a formação de uma cidade no Rio de Janeiro, sendo o povoamento a única maneira que consideravam eficaz para defender o sítio e impedir os corsários de amotinarem os indígenas. Em 2 de setembro de 1557, o padre Manoel da Nóbrega escrevera da Bahia ao padre Miguel de Torres, em Lisboa, propondo a fundação de uma cidade na Baía de Guanabara e referindo-se: às dificuldades de vida na Capitania de São Vicente, que ameaçava despovoar-se e aos índios Tamoios que se mantinham rebeldes à submissão.(4) O Governador, em carta de 1o de junho de 1558 à Corte, informava do estado de paz reinante no Espírito Santo, em cuja jornada seu filho Fernão de Sá perdera a vida e mostrava-se preocupado com as notícias que, por via do Espírito Santo, chegavam do Rio de Janeiro, onde os franceses reuniam cada vez mais gente e forte armada. Mem de Sá propunha fortificar a Capitania do Espírito Santo e nela fundar uma cidade, tão poderosa como a de Salvador, que seria como uma barreira defensiva do território ao Norte e ao mesmo tempo, o ponto de ataque para acabar com a presença francesa no Rio de Janeiro.(5) Outra vez escreveu o Governador à Corte, a 10 de setembro, sobre as medidas que encarava como necessárias, para vencer a ameaça que pairava sobre o Brasil. A carta não chegou aos nossos dias, mas a resposta da Regente dava carta branca ao Governador para agir como melhor entendesse.(6) Mem de Sá não possuía meio suficiente para derrotar os franceses e teve que aguardar a chegada da frota de socorro vinda do Reino, com homens e material de guerra bastante para tão árdua empresa. "Nesta época, duas forças sociais se formavam na vida colonial, dispersa e desordenada e começavam a produzir resultados: de um lado a concentração do Governo na pessoa de um magistrado que incorporava a autoridade do rei, a direção espiritual das consciências procurando religar os indivíduos em torno de uma moral superior, exercida pelo missionário que agia religiosamente, sobre aquela mistura heterogênea de almas e de propósitos."(7) Unia-se o poder temporal e o espiritual: Mem de Sá e Manuel da Nóbrega, que se completavam harmoniosamente, pelo apoio e pelo conselho, para defender a soberania portuguesa e expulsar os franceses da Guanabara e subjugar os índios Tamoios. No Conselho Régio de 3 de setembro de 1559 ficou decidida a partida de uma frota, com homens e material de guerra em socorro ao Brasil. Por alvarás de 20 de abril e de 29 de agosto de 1559, recebera Bartolomeu de Vasconcelos da Cunha o comando do navio Gavião e o cargo de chefe da armada.(8) O Conselho havia decidido que se devia expulsar os franceses da Guanabara. A frota partiu de Portugal e chegou a Salvador em novembro. Era intenção vigiar a costa, impedindo a chegada de outros contingentes de franceses para que o sonho da França Antártica fosse interrompido. O Governador juntou os navios da Armada Real, dez a doze caravelas que se encontravam em Salvador, convocou nobres, homens de armas, escravos e índios, mas não conseguiu reunir muita gente. A 3 de janeiro de 1560 foi nomeado como escrivão da frota Antonio Serrão. No dia 16 de janeiro partiu da Bahia, visitando as Capitanias de Ilhéus, Porto Seguro e Espírito Santo, recebendo por toda parte o contingente que os moradores podiam fornecer, chegando ao Rio de Janeiro a 21 de fevereiro, fundearam fora da barra e ficaram à espera. |
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Os franceses estavam divididos por graves querelas que enfraqueciam o seu ideal de resistência. Os defensores já não contavam com a chefia de Villegagnon que, em outubro de 1559, regressara à Europa. A água e os víveres começavam a escassear na ilha, forçando os moradores a penetrar em tabas vizinhas e a obter dos índios, às vezes pela força, as provisões de que careciam para se manterem no reduto insular. Muitos franceses fugiram para a terra firme, passando a viver no meio dos índios, identificando-se com o seu modo de vida. A frota portuguesa, à entrada da baía aguardava o momento propício para o assalto. Devido às dificuldades do ataque, a uma posição solidamente defendida, os capitães aconselharam Mem de Sá a não dar início a uma batalha de resultado duvidoso sem tentar a rendição dos sitiados. Mem de Sá convidou os franceses à rendição, mas a proposta foi rejeitada por Bois-le-Comte, dizendo que recebera de seu tio ordem de comandar e defender o Forte e o faria ainda que a custo de sua própria vida. Mem de Sá havia enviado a São Vicente o padre Manoel da Nóbrega, que o acompanhava, sendo sempre o seu mais leal companheiro. Nóbrega, que já estivera em São Vicente lá possuía muitas simpatias, pelos seus esforços e também pelos do irmão José de Anchieta que fazia trabalhos de catequese naquela região. Assim conseguiu Nóbrega preparar uma expedição formada de soldados voluntários, mamelucos e indígenas conhecedores da costa, que foram guiados por mais dois religiosos: Fernão Luiz e Gaspar Lourenço. A 15 de março de 1560, com a chegada de reforços de São Vicente, o ataque foi iniciado e durante dois dias e duas noites houve entre os portugueses e os franceses intenso fogo. A resistência dos praças arrancou a admiração do Governador Geral que em sua participação oficial à Regente assim se exprimiu: "Porque, posto que não vi muito e li menos, a mym me parece que se naõ vi outra fortaleza taõ forte no mundo." (9) Segundo o testemunho do próprio Mem de Sá, o número de franceses que capitularam foi de setenta e quatro, além de alguns escravos, a este número se juntaram mais quarenta dos que andavam por terra e os de um navio apresado e havia mais de mil gentios da terra, que eram tão bons espingardeiros como os franceses enquanto que os assaltantes não passavam de duzentos e sessenta entre portugueses e indígenas. No dia 17 de março foi rezada missa na Ilha, quando os portugueses renderam graças ao céu pelo triunfo obtido. Depois da vitória foi necessário tomar a decisão sobre o que fazer com a fortaleza, em um Conselho dos principais oficiais e ficou decidido que o Forte de Coligny fosse arrasado para impedir que os franceses voltassem a ocupá-lo e foram recolhidos aos navios portugueses a artilharia e os despojos do inimigo. Durante o combate foram praticados feitos de valor e Manoel Gonçalves foi feito cavaleiro pela coragem demonstrada.(10) As cartas de Sesmaria que foram concedidas, a partir de 1568, aos primeiros moradores, indicaram o nome de muitos companheiros de Mem de Sá, que depois vieram a fixar-se na terra. Na carta de 17 de junho de 1560, Mem de Sá forneceu à Corte largos pormenores sobre a vitória alcançada sobre os homens de Bois-le-Conte. A 22 de setembro, outra carta fez referência aos serviços prestados pelo irmão do Bispo do Brasil, Gaspar Leitão e pelo sobrinho do Governador, Estácio de Sá, que teria sido o primeiro homem a entrar na Ilha de Villegagnon, seguido de Gaspar Leitão que teria alcançado a Ilha a nado.(11) Duas fontes valiosas sobre o ataque são: a carta de José de Anchieta ao padre Laines,(12) e a carta de Manoel de Nóbrega, datada de 1o de junho de 1560 e enviada de São Vicente ao Cardeal Infante D. Henrique, onde mostrava a urgência de se erguer uma povoação da Baía de Guanabara: "Parece muyto necessário povoar-se o Rio de Janeiro e fazer-se nelle outra cidade como a da Bahia, porque com ella ficará tudo guardado, assi esta Capitania de S. Vicente como a do Espírito Santo que agora estão bem fracas, s os franceses lançados de todo fora e os Índios se poderem milhor sojeitar."(13) O combate travado na Guanabara entre franceses e portugueses foi descrito no Poema Épico de José de Anchieta: De Gestis Mendi de Saa, em sua parte referente a este combate. Mas o próprio Anchieta se surpreendeu com o estrondo inesperado da fortaleza e com a vitória repentina dos portugueses depois de dois dias de duros combates e parecia ignorar o plano engendrado por Manoel da Nóbrega juntamente com Jean Cointa, que devido às dificuldades encontradas foi colocado em prática por Mem de Sá. Anchieta atribui a vitória sobre os franceses às preces dos jesuítas e do Governador. Mas não foi bem assim, Jean Cointa, em 1558 havia deixado a Guanabara e ido para São Vicente juntamente com um grupo de Tamoios, mas aproveitou um descuido dos índios e fugiu indo se juntar aos vicentinos, aos quais avisou que os Tamoios pretendiam atacá-los. Em virtude deste ato ganhou a simpatia dos vicentinos. Mas Cointa foi preso em São Vicente e condenado e devia ser enviado ao Tribunal do Santo Ofício, em Lisboa para ser julgado, mas obteve o relaxamento de sua prisão graças à interferência de Mem de Sá e do Padre Nóbrega, assim veio a auxiliar Mem de Sá na tomada do Forte na Guanabara, guiando os homens de confiança do Governador, durante a noite ao paiol de pólvora do forte, detonando-o. Tanto Nóbrega como Mem de Sá em seus depoimentos ao tribunal do Santo Ofício, confirmaram que o francês havia lhes auxiliado na destruição do forte. Frei Vicente de Salvador, no se livro História do Brasil, narra assim o episódio: "porém estando uns e outros metidos no furor do combate, Manuel Coutinho, homem pardo, Afonso Martins Diabo e outros valentes soldados portugueses, subindo por uma parte que parecia inacessível, entraram o castelo e ocuparam repentinamente a pólvora do inimigo... Descorçoados os franceses com a perda da pólvora e com o inopinado atrevimento dos portugueses, desampararam o castelo à meia-noite com todas as máquinas de guerra que nele havia, recolheram-se às suas naus e parte dele em elas se tornaram pera sua terra, outros ficaram com os tamoios."(14) Da fortaleza francesa salvou-se a artilharia, pela qual Villegagnon posteriormente veio a reclamar, desejando indenização pela sua perda. Mem de Sá destruiu algumas aldeias de índios em terra firme e tratou de consertar navios que haviam sido atingidos pela artilharia francesa, a fim de que pudesse prosseguir viagem para São Vicente. Mem de Sá seguiu para São Vicente, mas não seguia tranqüilo porque temia novas incursões dos franceses, ele definia a vitória como graça divina, não tendo Deus permitido que hereges se fixassem em terra católica. Ainda desta vez não foi possível povoar a Guanabara, porque não havia gente para isto. O Forte de Coligny foi arrasado para que não fosse de novo ocupado pelos franceses. Muitos franceses fugiram para terra e se embrenharam nas matas junto com os Tamoios. Perdia-se mais uma vez a oportunidade de fundar uma povoação na região, por falta de condições e o Rio de Janeiro era outra vez abandonado. Mem de Sá e Nóbrega sabiam que a Capitania de São Vicente também lucraria com esta fundação, pois garantiria a pacificação dos nativos num território em que os Tamoios confederados, com o apoio dos franceses, desencadeavam violenta guerra contra os moradores portugueses, dominando toda a costa de Cabo Frio a Bertioga, mas as circunstâncias impediam que fosse feito aquilo que todos julgavam conveniente, a gente era pouca, o território imenso, os agrupamentos espalhados e a defesa precária. Na Capitania de São Vicente, Mem de Sá em sua carta de 17 de junho de 1560, escrevia a Da. Catarina: "Pelo que parece muito serviço de V. A. mandar povoar este rio de janeiro para segurança de todo o Brasil, e dos outros maus pensamentos, porque se os francezes o tornão a povoar hei medo que seja verdade o que Villegagnon dizia que todo o poder de Hespanha, nem do Grão Turco o poderá tomar... O que peço agora a V. A. he que me mandes ir, porque já sou velho e sei que não sou para esta terra. Devo muito porque guerras não se querem com miseria, e perder-me-hei se mais cá estiver."(15) Na Corte Portuguesa causou estranheza que Mem de Sá houvesse destruído a fortaleza, ao invés de tomá-la, mas este alegava que não tinha tropas para defendê-la e temia que ela viesse a ser novamente ocupada pelos franceses, mas se ele sofreu críticas pelo seu ato, os jesuítas assumiram a sua defesa e Anchieta escreveu para ele seu poema épico e os testemunhos irrefutáveis dos ministros de Deus foram mais fortes que as intrigas dos bajuladores da Corte. Na Corte Francesa a notícia causou ressentimento e Carlos IX reagiu anunciando fortes represálias aos navios portugueses e exigiu de Da. Catarina a restituição da fortaleza. Esta fez ver ao Monarca que a atitude de represália aos franceses foi conseqüência do abuso de cidadãos franceses em se instalar em terras que não lhes pertencia e que foi imposta como medida de soberania. Durante 1562, o embaixador português João Pereira Dantas viu-se obrigado a defender, na Corte de Paris, os direitos de Portugal às terras do Brasil. Villegagnon vendo perdida uma causa que deixara de merecer o apoio militar dos Reis de França, procurou obter compensações materiais para cobrir os prejuízos que a destruição do forte lhe causara. Villegagnon procurou João Pereira Dantas a quem fez entrega de uma proposta destinada a afastar os franceses do Brasil,(16) é possível que tenha recebido a quantia de 30.000 ducados,(17) mas este fato já não pertence propriamente à História do Brasil. Em 25 de abril de 1562, D. Sebastião recebeu uma carta do provedor da Capitania de São Vicente - Brás Cubas, insistindo mais uma vez nas vantagens da fundação de uma cidade.(18) Muitos franceses que tinham fugido do Rio de Janeiro e buscado refúgio em tribos vizinhas, em 1561 foram atacar a capitania do Espírito Santo, que vivia horas amargas, estando Vasco Fernandes Coutinho em extrema pobreza. A Coroa não podia esperar mais tempo, era necessária a criação de um núcleo português na Baía do Rio de Janeiro. Mem de Sá retornou a Salvador, em companhia do Padre Luís de Grã como Provincial da Companhia de Jesus, deixando Nóbrega em São Vicente muito doente. Foi recebido com grande alegria e festas que ainda não tinha visto serem realizadas em seu Governo. |
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Se a Villegagnon foram atribuídos todos os louros por ter tornado possível a implantação da França Antártica no Brasil, a Villegagnon também os historiadores atribuem as causas do insucesso da ocupação da Baía de Guanabara e o fato do projeto da França Antártica ter malogrado. Aqui apresentamos alguns comentários extraídos de obras históricas de quatro historiadores que tratam do tema em questão: Francisco Adolfo de Varnhagem e Robert Southey, que escreveram pelo lado português em suas obras sobre a História do Brasil e que descrevem os acontecimentos a partir da análise dos Governos Gerais do Brasil e de Arthur Heulhard e Paul Gaffarel, historiadores franceses que escreveram no contexto da biografia de Villegagnon e seus feitos. Também é considerada a opinião de Paulo Knauss de Mendonça, em sua tese O Rio de Janeiro da Pacificação - Franceses e Portugueses na disputa Colonial. Villegagnon é considerado desde um "ambicioso e hipócrita aventureiro" por Varnhagen(19) até "um vil traidor que enganava Coligny", por Southey, que assim critica Villegagnon: "O zelo que inculcava à religião reformada, era para apanhar ao Almirante o seu dinheiro e o seu crédito, conseguindo isto, e parecendo-lhe de maior vantagem seguir a parcialidade oposta, ou comprado como se diz pelo Cardeal Guise." e mais: "que os portugueses deixaram a colônia francesa por quatro anos sem ser molestada e o fracasso da França Antártica se deu mais pela traição de Villegagnon. Dez mil flamengos teriam imigrado para a França Antártica, estavam apenas esperando notícias que trazia Léry."(20) Já Heulhard descreve em sua obra: "Ce n'est pás Calvin, c'est Villegagnon que a tué son frére Abel: Villegagnon est le 'Caim d'Amerique'. Et c'est ce maroufle que l'on dit: 'roi dÁmerique'."(21) E Gaffarel considera que: "Le depart de Villegagnon ressemblait donc a une défection et était presque une défection. Tant que le gouverneur était resté a son post, sa reputation de courage et d'habilité en avait imposé aux Portugais et à leur alliés, qui n'avaient pas se l'attaquer directement. A peine s'était-il embarque, que la colonie s'enffondra pour ainsi dire sous les coups répétés de ses ennemies; en sorte que Villegagnon; qui avait arrêté sés progrés fut encore le principal auteur de sa ruine.Si em effet nous résumons les principaux acts de son administration c'est, sur lui que retombera toute la responsabilité de l'insuccés final. Le depart de Villegaigon entraîne la ruine presque immediate de la colonie. Son sucesseur intérinaire et neveu Bois-le-Conte n'avait ni l'autorité ni les talents nécessaire pour maintenir les colones dans l'obéissance et pour résister aux Portugais et à lerur alliés."(22) Sendo assim ele considera Villegagnon um desertor que havia abandonado as terras guanabarinas e sua partida é que teria causado o fracasso da França Antártica. Southey chega a considerar que foi o próprio Villegagnon que impediu que o Rio de Janeiro se tornasse francês, dizendo: "que a traição do comandante a seu próprio partido teria feito com que o Rio de Janeiro não viesse a se tornar uma cidade francesa."(23) A chegada dos calvinistas é considerada como um fato que em vez de melhorar a situação da colônia só fez deteriorar ainda mais o relacionamento entre o Governador e os seus habitantes, gerando as discussões teológicas com os pastores que chegaram em 1557 e os calvinistas são considerados os vilões, que depois de Villegagnon levaram a França Antártica ao fracasso. Varnhagen assim descreve o efeito causado pelos calvinistas: "O reforço, longe de trazer à colônia francesa paz e concórdia, como julgava Villegagnon, em sua carta que escreveu a Calvino, veio aumentar o número de queixosos contra aquele chefe, e descobrir que ele, pelo sue caráter despótico e barulhento, daria pouco que fazer aos legítimos dominadores da costa do Brasil."(24) Gaffarel, Varnhagem e Southey defendem que desde o início a expedição tinha como objetivo instalar um asilo protestante na América. Gaffarel acha que o caráter huguenote da colônia era uma imposição do Almirante Coligny para que ela tivesse apoio. Heulhard, considera que a ocupação da Guanabara pode ser dividida em duas fases: o projeto inicial era uma obra de Villegagnon que não tinha em mente realizar uma colônia protestante na América, o desenrolar das expedições na Guanabara fez com que o projeto fosse utilizado pela causa protestante, devido à falta de apoio da Coroa e o próprio comportamento de Villegagnon com sua mudança de postura no comando demonstrava isto, tendo mudado de opinião com as circunstâncias. Para ele a segunda fase do empreendimento se: "distinguiria pelas discussões teológicas com os pastores calvinistas que chegaram em 1557."(25) Outro ponto a ser considerado é que se até a volta dos calvinistas a ocupação da Baía de Guanabara não se solidificara, a partir daí tudo ficou mais difícil. O Almirante Coligny já não tinha o mesmo prestígio e o Duque de Guise teria ampliado seu poder, por outro lado Villegagnon se indispusera com a comunidade católica francesa ao acolher os protestantes e segundo Gaffarel: "Personne in France ne s'interessait donc plus au Brésil."(26) A valorização da ação militar portuguesa na historiografia teve como conseqüência desvalorizar o Governo Geral de Duarte da Costa e supervalorizar as potencionalidades francesas sobretudo na solidez do Forte de Coligny e no auxílio dos índios Tamoios, exaltando o heroísmo dos agentes da ação lusitana, expressado principalmente em Estácio de Sá e Mem de Sá, fatos que também são observáveis nas fontes da época, principalmente nas cartas de Anchieta e Nóbrega, além de em Southey e Varnhagem. Desta forma surge a associação do insucesso da França Antártica como a afirmação do domínio colonial lusitano que resulta na fundação da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. O empreendimento da França Antártica pode ser considerado a ação de maior porte realizada pelos franceses, no século XVI, no sentido de contrariar a postura de exclusividade dos mares tomada pelas nações ibéricas na época, assim a empresa levada a termo na região da Guanabara constituiu-se em um ato de afirmação da liberdade dos mares defendida pelos franceses e outras nações européias e se de forma irônica este empreendimento não teve êxito e foi derrotado pela reação lusitana em defesa de sua exclusividade, o tempo iria mostrar que a livre navegação derrotaria o "mare clausum". A participação de duas importantes personagens religiosas como estimuladores do empreendimento: o Almirante Coligny e o Cardeal de Lorena; leva a uma interpretação de que a França Antártica envolvia as duas facções religiosas em disputa no território francês e a consideração dos objetivos religiosos que comumente estão associados ao fato, mas por outro lado como eles eram figuras proeminentes na Corte francesa pode levar a interpretação política atrelada à defesa do "maré liberum", que tinha na França sua maior defensora. Esta interpretação é defendida por Paulo Knauss de Mendonça(27), que considera que a empresa colonizadora poderia garantir para a França uma parte do mercado colonial. Neste caminho de pensamento o benefício do empreendimento cairia sob os interesses mercantis franceses, o que combina com a presença constante de franceses na Baía de Guanabara, local escolhido para criar o núcleo francês de colonização, desta forma o projeto se caracterizaria como uma atividade de corso, sendo assim, um projeto pessoal de Villegagnon que obteve o apoio da Coroa. Esta visão serve para explicar o fracasso do empreendimento devido ao posterior desinteresse e falta de apoio da Coroa francesa e a debilidade de interesses mercantis ultramarinos da França. Com o passar do tempo a França não estava mais em condições de se preocupar com sua colônia do Brasil, porque a época estava atravessando uma situação crítica no campo externo com uma Guerra contra a Áustria e os Habsburgos e internamente passava por turbulências políticas e religiosas. O rei Henrique II morreu em 1559 e Catarina de Médicis assumiu a Regência em nome de seu filho e teve que enfrentar uma dura luta religiosa contra o calvinismo em defesa da fé católica. Os franceses precisavam, para se manter na colônia, de grandes investimentos em armamento e guarnições na Guanabara, com as quais pudessem enfrentar os portugueses e se estabelecerem definitivamente, mas os reforços franceses nunca chegaram. |
(1) - A.N.T.T., Gavetas 20, maço 5, doc. 40; publicada em SERRÃO, Joaquim Veríssimo. O Rio de Janeiro do Século XVI. Vol. II,
pág. 32.
(2) - A.N.T.T., Chancelaria de D. João III, Doações, livro 59, folha 194; documento publicado por Sousa Viterbo: "Estudos sobre
Sá de Miranda, III, Mem de Sá e sua Descendência, outras informações", in O Instituto, volume 43, Coimbra, 1896, págs. 335-336
apud SERRÃO, Joaquim Veríssimo. O Rio de Janeiro do Século XVI. Vol.I, pág. 64.
(3) - Joaquim Veríssimo Serrão. O Rio de Janeiro do Século XVI. Vol I Lisboa, Edição da Comissão Nacional de Comemorações
do IV Centenário do Rio de Janeiro,1965, pág. 65.
(4) - Serafim Leite. Cartas do Brasil e mais escritos do Padre Manuel da Nóbrega. Belo Horizonte, Editora Itatiaia, 2000, pág.
260-276, carta 29.
(5) - A.N.T.T., Corpo Cronológico, parte I, maço 102, doc. 103; publicada por Sousa Viterbo: "Estudos sobre Sá de Miranda, III,
Mem de Sá e sua Descendência, outras informações", in O Instituto, volume 43, Coimbra, 1896, páginas 337-338 e publicado
em SERRÃO, Joaquim Veríssimo. O Rio de Janeiro do Século XVI. Vol. II, pág. 34.
(6) - A.N.T.T., Coleção São Vicente, volume 10, folha 227-228; publicado pelo padre Serafim Leite S.I.: Monumenta Brasiliae,
volume III (1558-1563), Roma, 1958, páginas 11-14 e publicada
em SERRÃO, Joaquim Veríssimo. O Rio de Janeiro do Século XVI, Vol. II, págs. 36-37.
(7) - João da Costa Ferreira. A Cidade do Rio de Janeiro e seu Termo, Revista do IHGB, volume 164, Rio de Janeiro, 1933,
pág. 188.
(8) - Biblioteca da Ajuda, códice 51 - VI - 41, folhas 71 e 71 vº, publicada em SERRÃO, Joaquim Veríssimo. O Rio de Janeiro do
Século XVI, Vol. II, pág. 38.
(9) - Carta de 17 de junho de 1560, de Mem de Sá à Regente Da. Catarina sobre a conquista da Ilha, do A.N.T.T., gavetas 2,
maço 10, doc. 9, publicada em SERRÃO, Joaquim Veríssimo. O Rio de Janeiro do Século XVI, Vol. II, pág. 42.
(10) - A.N.T.T., Chancelaria de D. Sebastião e D. Henrique, Privilégios, livro 2, folha 124, publicado em SERRÃO, Joaquim
Veríssimo. O Rio de Janeiro do Século XVI, Vol. II, pág. 48.
(11) - Biblioteca Municipal de Santarém, Papéis de Louzada, III parte, volume 3, página 828 apud SERRÃO, Joaquim Veríssimo.
O Rio de Janeiro do Século XVI, Vol. I, pág. 76. Trata-se de um sumário de Gaspar Álvares e não se conhece o texto original.
(12) - Carta datada de São Vicente em 1o de junho de 1560; publicada pelo padre Serafim Leite S.I.: Monumenta Brasiliae,
volume III, Roma, 1958, página 267 e em ANCHIETA, José de. Cartas, Informações, Fragmentos Históricos e Sermões - 1554-
1594. Academia Brasileira de Letras - Rio de Janeiro, 1933 e Livraria Itatiaia,1988, págs. 166-169.
(13) - Serafim Leite. Cartas do Brasil e mais escritos do Padre Manuel da Nóbrega. Belo Horizonte, Editora Itatiaia, 2000,
pág. 369.
(14) - Frei Vicente do Salvador. História do Brasil - 1500-1627, 7a ed., Coleção Reconquista do Brasil, Volume 49, São Paulo,
Editora Itatiaia Ltda., 1982, pág. 155.
(15) - João da Costa Ferreira. A Cidade do Rio de Janeiro e seu Termo, Revista do IHGB, volume 164, Rio de Janeiro, 1933, pág.
200-201, cópia da carta original existente no Arquivo Nacional da Torre de Tombo, gaveta 20, maço 10.
(16) - Carta de João Pereira Dantas, original do A.N.T.T., Corpo Cronológico, parte I, maço 106, doc. 45, publicada em SERRÃO,
Joaquim Veríssimo. O Rio de Janeiro do Século XVI, Vol. II, pág. 51.
(17) - Francisco Adolfo de Varnhagen, Visconde de Porto Seguro. História Geral do Brasil. 10a ed., vol I, tomo I, São Paulo,
Edições Melhoramentos, 1978, nota 19, pág. 306.
(18) - A.N.T.T., Gavetas II, maço 6, doc. 22, publicada em SERRÃO, Joaquim Veríssimo. O Rio de Janeiro do Século XVI, Vol. II,
pág. 49.
(19) - Francisco Adolfo de Varnhagen, Visconde de Porto Seguro. História Geral do Brasil. 10a ed., vol I, tomo I, São Paulo,
Edições Melhoramentos, 1978, pág. 286.
(20) - Robert Southey. História do Brasil. Vol I, 2a edição, Belo Horizonte- Bahia, Livraria Progresso Editora, 1948, pág. 237.
(21) - Arthur Heulhard. Villegagnon, roi d`Ámerique, un homme de mer au VXIéme siècle (1510-1572). Paris, Ernest Leroux,
1897, págs. 178-179. Maroufle significa velhaco.
(22) - Paul Gaffarel. Histoire du Brésil Français au XVIéme siècle, Paris, Maisonneuve, 1878, págs. 298.
(23) - Robert Southey. pág. 237.
(24) - Francisco Adolfo de Varnhagen, pág. 287.
(25) - Arthur Heulhard, pág. 127.
(26) - Paul Gaffarel, pág. 304.
(27) - Paulo Knaus de Mendonça. O Rio de Janeiro da Pacificação - Franceses e Portugueses na Disputa Colonial. Rio de
Janeiro, Coleção Biblioteca Carioca, volume 18, Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro, 1991. pág. 61.
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