O SÉCULO XVII

SALVADOR CORREA DE SÁ E BENAVIDES



Salvador Correa de Sá e Benavides

"Alcaide-mor da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, Almirante da Costa do Sul e Rio da Prata com Superintendência em todas as matérias de Guerra da dita costa, Governador da Capitania do Rio de Janeiro, Administrador de todas as Minas do Brasil, Conselheiro dos Conselhos de Guerra e Ultramarino, Restaurador e Governador de Angola".



Salvador Correa de Sá e Benavides pertenceu à história épica da colonização do Brasil, nenhum outro português se destacou tanto como ele nos serviços prestados à Coroa durante o século XVII. Alguns escritores brasileiros e portugueses defendem que Salvador teria nascido no Rio de Janeiro em 1594, mas documentos recentes mostram que ele nasceu em 1602 em Cádis.(1)

Desde pequeno já acompanhava seu pai em suas viagens a Lisboa e de exploração nas terras do Brasil. Estudou no Colégio dos Jesuítas do Morro do Castelo, fundado quando Mem de Sá e Estácio de Sá expulsaram os franceses do Rio de Janeiro. Viveu provavelmente na fazenda do Engenho da Tijuca que pertencia à sua família.(2) Com cerca de vinte anos já estava no comando de um combóio de Pernambuco para Lisboa e a partir daí não pararia mais de comandar as armadas para defender a terra dos corsários que saqueavam as frotas portuguesas e dos bloqueios holandeses.

Nos anos de 1616 e 1617 deve ter acompanhado seu pai a Lisboa, quando ele viajou por ordem de Salvador Correa de Sá para saber de Felipe II as providências sobre o descobrimento das minas em terras do Brasil. Salvador Correa de Sá, apesar da idade avançada, inspirava ao filho e ao neto, o exemplo de comportamento e virtudes.

Em 1618 voltou ao Brasil com o pai, que vinha munido de poderes especiais e acompanhou-o na viagem às supostas minas de Sergipe, onde se pensava existir uma outra Potosi. Ainda em 1618, Salvador receberia o grau de Cavaleiro da Ordem de Santiago da Espada, tendo sido dispensado da exigência legal de não poder ser cavaleiro antes de vinte e um anos.(3)

Quando os holandeses conquistaram a cidade de Salvador, em 1624, prenderam o Governador Diogo de Mendonça Furtado, em Portugal foram preparadas expedições de socorro, que precederam a esquadra luso-espanhola de D. Fradique de Toledo. Salvador que se encontrava em Lisboa, comandou a nau Nossa Senhora da Penha de França, que veio à frente da esquadra com combatentes e mantimentos de guerra. No Rio de Janeiro, recebeu do Governador, seu pai a incumbência de recrutar homens em São Vicente, cumprida a missão embarcaram com destino à Baía. No caminho, encontrou no Espírito Santo, oito naus holandesas sob o comando de Piet Heyn, vindas de Angola. Salvador conseguiu socorrer a guarnição local e salvou a praça.

O Padre Antonio Vieira que acompanhou os acontecimentos, escreveu longa carta, em 1626, destacando a vitória de Salvador de Sá.(4) Frei Vicente esteve com Salvador em 1625 e teria ouvido do próprio Salvador a narração dos acontecimentos. Nesta vitória teve papel destacado a destreza dos índios arqueiros que Salvador havia trazido dos aldeamentos de jesuítas das Capitanias do Rio de Janeiro e São Vicente.

Depois da vitória no Espírito Santo, Salvador juntou-se aos combatentes portugueses que se preparavam para libertar a Bahia, nesta tarefa permanecendo até maio de 1625 quando a cidade foi recuperada e os vencedores tiveram entrada triunfal na capital restaurada. Não se sabe se depois Salvador partiu de volta para o Rio de Janeiro ou se foi direto para Portugal, mas em 5 de fevereiro de 1628, Salvador recebeu de Felipe III a Alcadaria-mor da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro: "por todos os anos de sua vida"(5), pelos serviços prestados á Coroa.

Em 1630, Salvador viajou ao Paraguai para acompanhar sua prima Dona Vitória que ia encontrar-se com o esposo, D. Luís Céspedes Xeria, Governador do Paraguai. A viagem durou cinco anos e nela Salvador teve como função apaziguar os índios de uma tribo revoltada na região do Chaco. Salvador casou-se com uma rica viúva crioula: D. Catalina de Ugarte y Velasco, filha de D. Pedro Ramirez de Velasco, descendente de D. Luís de Velasco - Vice-Rei do México e por duas vezes do Peru, e teve seis filhos, dos quais dois tiveram importância destacada: Martim Correa de Sá, que lutou com o pai em Angola e recebeu o título de Visconde de Asseca e João Correa de Sá, Marechal de Campo, que teve importantes serviços prestados no Brasil e na Índia. Com o casamento, Salvador tornou-se grande latifundiário em Tucumán, Província que abastecia o Potosi, região das minas de prata, onde Salvador esteve em 1633.

Durante a viagem, Salvador soube da morte de seu pai, ocorrida no Rio de Janeiro, em 1632, e possivelmente vizando a Governadoria do Rio de Janeiro voltou ao Brasil.

Dois anos depois da morte de seu pai, Salvador já era Almirante dos Mares do Sul e estava em missão de submeter os índios do Rio da Prata. Em 1635 conseguiu a pacificação das Províncias Platinas. A Corte de Madrid soube recompensá-lo, dando-lhe o Governo por dois triênios, da Capitania do Rio de Janeiro, de 1637 a 1643, pela Carta Régia de Felipe II, de 21 de fevereiro de 1636. Este foi seu primeiro período como Governador da cidade.

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Primeiro Período como Governador do Rio de Janeiro

Ainda em 1637, Salvador estaria em Portugal obtendo mantimentos, armas e munições para fortalecer a Capitania. As Capitanias do Rio de Janeiro, São Vicente e São Paulo, forneciam à Bahia, mantimentos, tornando-se armazéns gerais do exército e praças do Norte. Se não fossem os socorros organizados por Salvador, a sorte dos sitiados da Bahia e dos portugueses que lutavam contra o domínio holandês, em Pernambuco, teria sido bem diferente. Prova disto é encontrada numa consulta do Conselho da Fazenda, de 10 de março de 1640, que fala sobre o zelo de Salvador e nos recursos que haviam sido enviados para sustentar os envolvidos na guerra. (6)

Salvador já era grande proprietário de terras no Rio de Janeiro, mas com a morte de seu pai herdou vastos bens territoriais, inclusive canaviais na Tijuca e em Jacarepaguá e conseguiu permissão do Conselho Municipal para construir um trapiche, para armazenamento e pesagem de açúcar, farinha de mandioca e outros produtos. Em 1639, Salvador solicitou o lugar de Administrador das Minas de São Paulo, cargo que havia sido de seu pai e de seu avô. Recebeu o cargo pela Carta Régia de 22 de março de 1640, com o soldo de Mestre de Campo, com poderes de Soberano Geral do Brasil, devido à necessidade de combater os holandeses.(7)

Em 10 de março de 1641, chegou ao Rio de Janeiro a notícia da aclamação de D. João IV em 1o de dezembro de 1640. O Vice-Rei D. Jorge de Mascarenhas, da Bahia, enviou a Portugal seus representantes para aderirem ao movimento restaurador. Salvador, embora sendo filho de mãe espanhola, D. Maria de Benavides e ser casado com uma espanhola, D. Catalina de Ugarte y Velasco, não hesitou em aclamar e reconhecer D. João IV como Rei de Portugal.

No período de seu Governo, entre 1639 e 1643, quando passou o Governo do Rio de Janeiro a Luís Barbalho Bezerra (1643 e 1644) e partiu para Lisboa, Salvador teve de combater: uma revolta da soldadesca do Rio; alguns exploradores dos sertões; proprietários de índios mansos, defendidos pelos jesuítas e outros que eram contra a longa "oligarquia" dos Sás, que fizeram acusações de irregularidades financeiras nas contas da cidade. A devassa apenas serviu para exaltar os méritos e a integridade do principal acusado e as queixas acabaram sendo consideradas improcedentes.

Ao deixar o Governo, Salvador voltou imediatamente a Portugal na frota de açúcar que partiu em junho, inspirado em parte pelo desejo de justificar pessoalmente perante D. João IV, sua obra de administrador e ficar livre das acusações que recebera. Teve tanto sucesso que permaneceu em Portugal pouco mais de dois anos e pode apresentar ao Rei as propostas e estudos que seriam a base para a reconquista do Brasil e de Angola e o reatamento imperial da política Atlântica, voltou ao Brasil nomeado General da Frota de Escolta aos navios que faziam o comércio entre o Brasil e Portugal, administrador das Minas de São Paulo e Conselheiro do Conselho Ultramarino, no qual tomou posse em 14 de dezembro de 1644.(8)

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Os Planos de Salvador para Reconquistar os Territórios Ultramarinos

O Plano de Salvador, apresentado a D. João IV, em 21 de outubro de 1643, para a reconquista dos territórios invadidos pelos holandeses, estavam baseados em três pontos:

  1. - se referia à forma de se retomar o comércio com a Buenos Aires, fundando uma fortaleza nos domínios de D. Catarina, preparando uma expedição que sairia do Rio de Janeiro pelo mar e uma bandeira de São Paulo que desceria o Rio Paraguai. Esta parte se referia ao domínio do Rio da Prata e o aproveitamento das minas de Potosi, concentrando o comércio com a América do Sul em mãos portuguesas;(9)

  2. - se referia à retomada de Angola, desde 1641 em mãos holandesas, e meios de restaurá-la; (10)

  3. - se referia à maneira de perseguir os holandeses no Brasil.(11)

Os planos de Salvador foram aprovados de forma geral em 24 de outubro de 1643 pelo Conselho de Guerra. Em 10 de junho de 1644, o Conselho Ultramarino também apreciou os planos de Salvador e os aprovou com exceção do primeiro, no que se referia a Buenos Aires, pois julgava inoportuno se lançar mão de novas conquistas em tempos tão difíceis.(12)

Em 1644, Salvador regressou ao Brasil, deveria ir primeiro à Bahia, para defendê-la em caso de necessidade e depois ir ao Rio de Janeiro, para preparar a expedição angolana que seria chefiada por Francisco de Sotto Maior, então Governador do Rio de Janeiro em exercício . Salvador preparou a frota, mas Sotto Maior morreu em Massangano, preso, antes de poder restaurar a colônia. Esta glória, por mérito, ficaria reservada a Salvador, que a preparou.

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A Separação das Capitanias - Parecer de Salvador

As Capitanias do Rio de Janeiro, Espírito Santo e São Paulo estavam unidas ao Governo da Bahia, mas Salvador não estava de acordo com esta união, porque achava que ela prejudicava os interesses e a defesa do Sul, que atingia até Buenos Aires, com cerca de mais de quinhentas léguas, com muitos portos e povoações que estavam sujeitas às ordens que levavam meses para chegar. Salvador considerava que só a graça de Deus poderia sustentar as Capitanias do Sul, que resistiram a todos os ataques enquanto as do norte foram roubadas e saqueadas pelos holandeses. Se o Maranhão estava separado do Governo Geral e tinha muito menos povoações, gente e terra, porque não fazer o mesmo com as capitanias do Sul.(13)

Com seu parecer, Salvador apresentava uma longa proposta de aproveitamento das riquezas do São Francisco, rio onde podiam navegar galeões, e fazia também a proposta para que se construíssem estes galeões no Brasil.

Em 1647, foi dada a Salvador a autonomia para governar as Capitanias do Rio de Janeiro, Espírito Santo e São Paulo, com independência da Bahia, apenas em tempo de guerra, mas passados dezessete anos, em 17 de setembro de 1658, a proposta de Salvador foi implementada por completo quando ele recebeu o Governo das Capitanias do Sul que governou entre 1660 e 1662.(14)

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Restauração do Brasil e de Angola

Depois de preparar a frota de Francisco Sotto Maior, que iria a Angola, Salvador voltou a Portugal, como General da Frota do Brasil, comandando vinte e dois navios, entre eles seis galeões, construídos no Rio de Janeiro.(15)

Chegou a Lisboa em 1645 e nesta época teve que provar ao Conselho Ultramarino seu bom procedimento, porque se dizia que ele ao passar pela Bahia se recusara a dar apoio ao Governador Geral Antonio Teles da Silva no plano para atacar Recife ainda em mãos dos holandeses. Por mais de dois anos, Salvador trabalhou em Lisboa nos projetos para restaurar Brasil e Angola, como Conselheiro do Conselho Ultramarino.

Apesar de Salvador achar que se devia levar a guerra aos holandeses em Angola, para sua recuperação, optou-se por celebrar um acordo para a restituição dos lugares ocupados. Anos antes Salvador defendia que um acordo diplomático seria a solução e a ação negociadora do Padre Antonio Vieira e do Embaixador Francisco de Sousa Coutinho, na Holanda, se baseava nesta posição. Mas naquele momento tomar o poder dos holandeses se firmara, como melhor opção, tanto no Brasil como em Angola, mas foi necessário esperar até 1647 para se tomar qualquer atitude, pois se tentar tomar os locais ocupados por armas, parecia à Corte uma grande loucura.

Diante da situação, Salvador partiu do Tejo em 24 de outubro de 1647, sem que fossem proclamados os verdadeiros poderes que lhe eram atribuídos, sem se dizer que ele partia para reconquistar Angola, oficialmente continuava-se a pregar as vantagens de um acordo diplomático. Salvador chegou ao Rio de Janeiro em 29 de janeiro de 1648, quando em Portugal o Rei mandava ouvir o Conselho Ultramarino, posição que era defendida pelo Padre Antonio Vieira.

Na Europa vivia-se em aparente paz, no Brasil continuava a guerra de reconquista. Em junho de 1648 celebrou-se a paz entre os Estados Gerais e a Espanha, poucos dias depois chegavam notícias da vitória de Guararapes obtida pelos portugueses. O Padre Antonio Vieira continuava pregando um acordo diplomático e achava que Angola estava perdida, não sabendo que aquela altura Salvador já se dirigia para Angola.

Com a vitória de Guararapes começou a parecer possível lutar contra os holandeses.(16)



Preparação no Rio de Janeiro

Duarte Correa Vasqueanes governou o Rio de Janeiro entre 1645 e 1648. Salvador chegando ao Rio, se ocupou em preparar a Armada que partiria para Angola, preparando mantimentos e completando as guarnições dos navios, inclusive com nativos. Salvador ficou no Governo da cidade entre janeiro e maio de 1648 e durante este tempo ainda enviou à Bahia, ao Governador Geral, uma embarcação de mantimentos e despachou três navios com sal para a Ilha de Santa Ana, onde deveriam ser preparadas as carnes para a viagem. Salvador se incumbiu diretamente de todos os preparativos da expedição. (16)

Em 9 de maio de 1648, Salvador reuniu em sua casa no Rio de Janeiro, os Capitães de Mar e Guerra e os pilotos práticos dos galeões e navios da Armada. Esta reunião foi descrita em documento que cita o nome de todos os principais chefes da Armada.(17)

Depois da reunião, Salvador escreveu ao rei relatando as providências tomadas para preparar a Armada, que seria formada de quinze embarcações com mil e quatrocentos homens e levaria mantimentos para seis meses. Para o financiamento da Armada o povo do Rio de Janeiro contribuiu com cerca de 60.000 mil cruzados.(18)

Com a saída da Armada para Angola, a praça do Rio de Janeiro ficou pouco guarnecida de soldados, de munições de guerra, de peças de artilharia e de mantimentos, por isto, Salvador suplicava ao Rei, em sua carta, que enviasse à Capitania, munições, pólvora e infantes para as Fortalezas que defendiam a cidade, que ficaria muito exposta às invasões de holandeses, que estavam em má situação em Pernambuco.

A Armada saiu do Rio de Janeiro em fins de maio de 1648, comboiando e protegendo, até certa altura da viagem, a Frota de açúcar que ia para Portugal.



A Recuperação de Angola

Salvador chegou a Quicombo em 12 de julho de 1648, dias depois uma tempestade tirou a vida de trezentos homens entre eles o Almirante da Armada, Baltasar da Costa de Abreu. Salvador decidiu seguir por mar até São Paulo de Luanda, em vez de erguer uma fortaleza na enseada de Quicombo e chegou à cidade em agosto.

Salvador propôs aos holandeses que deixassem a cidade, que já estava ocupada havia sete anos, eles pediram oito dias para deliberar, mas na verdade queriam dar tempo para que regressasse à cidade trezentos soldados que estavam no interior. Salvador deu três dias e em 14 de agosto de 1648 desembarcou suas tropas a meia légua da cidade.

Os holandeses capitularam em 16 de agosto, saindo vencidos do Forte do Morro de São Paulo, assinaram a capitulação e foram embarcados em dois navios. Apesar da Rainha negra Ginga ter prometido aos holandeses que se encontravam no interior ajudá-los a expulsar os portugueses, estes preferiram ser incluídos na capitulação e embarcar junto com os outros. Salvador ocupou a cidade de São Paulo de Luanda e enviou navios para restaurar Benguela e soldados e munições para São Tomé, que foi abandonada pelos holandeses quando souberam da rendição de Luanda.(20)

Salvador permaneceu quase três anos e meio como Governador de Angola e neste período expulsou definitivamente os holandeses, dominou as tribos negras revoltadas e fez renascer na região o antigo império. Não apenas recuperou os territórios ocupados mas também: reconstruiu os reinos do Congo, Angola e Benguela garantindo a mão-de-obra necessária às lavouras do Brasil; religou às feitorias e povoações costeiras os núcleos portugueses do sertão e espalhou a fé de Cristo impactada pelo novo credo flamengo. Desta maneira repondo tudo na forma que era antes de 1641.

Pelas exposições feitas por Salvador e apreciadas pelo Conselho Ultramarino, os acontecimentos de Angola puderam ser acompanhados passo a passo.

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A Volta de Salvador ao Brasil

Quando a Armada partiu do Rio de Janeiro em 1648, Salvador deixou como Governador seu tio Duarte Correa Vasqueanes, com recomendações para que continuasse nas explorações mineiras, de acordo com as ordens reais de Lisboa. Duarte Correa seguiu as instruções e em 3 de setembro de 1648 escreveu a D. João, participando que havia mandado fazer diligências nas minas de São Paulo, de onde vieram valiosas pedras e enviou junto, à carta, amostras para serem vistas pelo Rei. O Conselho Ultramarino ouvido sobre o assunto já havia aconselhado que fossem enviados mineiros para uma exploração mais completa.

Em outra carta de maio de 1648, Duarte Correa já havia dado contas a D. João IV sobre a "Jornada das Minas das Esmeraldas da Capitania do Espírito Santo" uma empresa que havia sido incentivada por Salvador em 1646, inaugurada pelos filhos de Marcos de Azeredo Coutinho, mas que não tinha tido sucesso em duas tentativas de montar uma expedição ao Espírito Santo para encontrar as minas supostamente ali existentes. Salvador voltou a investir posteriormente na busca destas miragens de esmeraldas.

Salvador cumpriu gloriosamente sua missão em Angola e depois de colocar tudo em ordem, deixou o Governo angolano, a seu pedido, em 1651. Todos os seus bens sacrificados à jornada de Angola voltaram aumentados, possuidor de vastas propriedades, plantações de cana e engenhos no Rio de Janeiro e nos Campos dos Goitacasez, não faltou mão-de-obra vinda da África para suas fazendas e para todo o Brasil. Tudo o que o Brasil deu a Angola, Salvador restituiu, incluindo o capital adiantado pelos habitantes do Rio de Janeiro para a reconquista de Luanda.

Em novembro de 1652, Salvador assistiu como Conselheiro, às Sessões do Conselho Ultramarino. A 4 de janeiro de 1657 foi feita a concessão, pelo Conselho Ultramarino, do pedido de Salvador, da posse de cem léguas de terra no Distrito de Santa Catarina. Depois da morte de D. João IV ele voltou a ser nomeado para Governador e Capitão Geral da Repartição do Sul, em 17 de setembro de 1658.

Em 1659, estando em Lisboa, Salvador se preparava para comandar uma expedição para voltar a ocupar seu posto de Governador de todas as Capitanias do Sul do Brasil, do Rio de Janeiro até Santa Catarina, sem nenhuma dependência do Governador Geral, tendo tomado posse em 2 de setembro de 1659, ficando sob sua administração quase metade do Brasil. Partiu de Lisboa com reforços de gente e munições que obteve em Portugal e governou as Capitanias do Sul entre 1660 e 1662.

Salvador chegou ao Rio de Janeiro em 18 de abril de 1659, seu objetivo mais importante neste período era a procura de minas, seu filho João Correa partiu à frente de uma nova bandeira para explorar a região das minas e Sabarabuçu e esta expedição encontrou filões auríferos que representaram a inauguração do grande Ciclo de Ouro do Brasil.

Este período de seu governo também foi dedicado á construção de galeões e às coisas do mar, tendo resolvido a construir o maior navio entre os que já havia saído de seu estaleiro na Ilha do Governador: o Padre Eterno, tendo para isto convocado um mestre em consertos de navios e carpinteiros na Capital da Colônia.

Salvador teve de conter a guarnição local, que era mal paga e mal cuidada. Em 1660 ele quis instaurar uma taxa domiciliar para o pagamento da guarnição, mas a proposta foi rejeitada e a Câmara propôs uma contribuição voluntária acrescida de uma taxa sobre a venda de aguardente, mas Salvador acabou por impor uma taxa por pessoa, calculada de acordo com a posição social e os recursos de cada indivíduo. Resolvido o problema da guarnição e estando o Padre Eterno em construção, deixou Tomé Correa de Alvarenga na governança e partiu para o sul em outubro de 1660.

As constantes ausências de Salvador do Rio de Janeiro serviram para estimular dissidências e criar revoltas na cidade, fomentadas pelo velho despeito em relação à dinastia dos Sás, constituída de filhos, sobrinhos e primos de Salvador Correa de Sá e Benavides.

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A Revolta de 1660

A nova taxa causou descontentamento na cidade e a Paróquia de São Gonçalo recusou-se a pagar e chefiados por Jerônimo Barbalho Bezerra pegaram em armas, a 2 de novembro fizeram um ultimato a Tomé Correa que ficou acovardado e aceitou submeter-se às condições dos revoltosos. A 8 de novembro os revoltosos convocaram o povo para uma reunião no Senado, à qual aderiram os membros da guarnição.

O Governador com outras autoridades e parentes fugiram para o Convento dos Beneditinos. A turba pôs-se a saquear suas casas, inclusive a de Salvador, enquanto uma reunião geral declarava que todos os Correas estavam destituídos de seus cargos e aclamava Agostinho Barbalho, irmão de Jerônimo como Governador.

Agostinho, embora relutante, acabou cedendo e aceitando o cargo. Aconselhou aos refugiados a voltarem para suas casas e tentou reintegrá-los em seus cargos, isto aumentou a revolta e Tomé Correa de Alvarenga e sua família foram presos e embarcados para Portugal, onde foi acolhido por D. Catarina de Velasco, esposa de Salvador.(26)

Jerônimo Barbalho então assumiu o controle da cidade, em fevereiro de 1661. Salvador tomou conhecimento da revolta em Paranaguá, viajou para São Paulo para se assegurar da lealdade paulistana, o que fez com que se sentisse forte para enfrentar os revoltosos do Rio de Janeiro. No dia 1o de janeiro de 1661 fez uma proclamação autorizando Agostinho a ficar no cargo como seu representante e prometia perdoar o povo do Rio de Janeiro. Como Agostinho relutasse em assumir o posto, Jerônimo e uma Câmara Revolucionária ficaram na administração da cidade.

Em 6 de abril, Salvador chegou à cidade, acompanhado: do filho, com quem se encontrou em Angra dos Reis vindo da região das minas; de alguns criados e negros escravos. Apoderou-se do corpo-de-guarda, do armazém e outros pontos fortificados e uniu-se aos seus amigos tomando a cidade. Salvador convocou uma Corte Marcial e condenou à morte Jerônimo Barbalho. Alguns chefes da rebelião foram enviados para a Bahia mas não fez nada contra o povo em geral. A execução de Jerônimo Barbalho, no entanto, criou um clima desfavorável na cidade e em 29 de abril de 1662, Salvador foi substituído por D. Pedro de Melo, que governou o Rio de Janeiro entre 1662 e 1665 .

Salvador voltou a Lisboa e nunca mais regressou ao Brasil, depois de quarenta e nove anos de serviços contínuos, voltando a trabalhar no Conselho Ultramarino até 3 de dezembro de 1680, data em que assinou sua última consulta.(27) Salvador Correa de Sá e Benavides viveu até aos noventa e quatro anos, foi sepultado no Convento de Nossa Senhora dos Remédios dos Carmelitas Descalços.

"A revolta do Rio de Janeiro, entre novembro de 1660 e abril de 1661, foi um acontecimento de grande importância na História do Brasil Colonial, embora sua verdadeira significação tenha sido muitas vezes esquecida pelos historiadores modernos." (28)

 

(1) - A.N.T.T., Habilitações da Ordem de Cristo, letra 8, maço 4, "Consulta da Mesa da Consciência e Ordens", 6 de abril de
1644, AHC Lisboa, cód. 253, livro 1 das consultas da Bahia, folha 43 e ss, Relatório de Salvador ao Conselho Ultramarino,
3 de maio de 1677.

(2) - Frei Vicente do Salvador, História do Brasil, livro V, cap. IX.

(3) - A.N.T.T., Chancelaria da Ordem de Santiago, livro X, folha 30.

(4) - Frei Vicente de Salvador , em História do Brasil, livro V, cap. 38, Frei Vicente de Salvador in Revista do IHGB, t. XXII,
pág. 564 e segs..

(5) - Revista do IHGB, Tomo XXIV, pág. 337.

(6) - Arquivo Histórico Colonial nº 193, caixa no 1, Rio de Janeiro - 1617 a 1645.

(7) - Arquivo Histórico Colonial nos 212 e 214, caixa no 1, Rio de Janeiro - 1617 a 1645.

(8) - Arquivo Histórico Colonial, Livro dos Autos de Posse do Conselho Ultramarino, folha 19.

(9) - Arquivo Histórico Colonial, doc. 245, caixa 1 - Rio de Janeiro (1617 - 1645).

(10) - Arquivo Histórico Colonial, doc. 246 - Rio de Janeiro.

(11) - Arquivo Histórico Colonial, doc. 244, caixa 1 - Rio de Janeiro.

(12) - Arquivo Histórico Colonial, doc. 305, caixa 1 - Rio de Janeiro.

(13) - Arquivo Histórico Colonial, doc. 519, caixa 2 - Rio de Janeiro.

(14) - Resolução Régia sobre a jurisdição de Salvador Correa de Sá e Benavides na Capitania do Rio de Janeiro e nas
outras do Sul
- Lisboa, 10 de outubro de 1658, in Arquivo Histórico Colonial, doc. no 782, caixa 2 - Rio de Janeiro e doc. no 781
de 10 de setembro de 1658.

(15) - Arquivo Histórico Colonial, Consultas Mistas, cód. no 14, folha 79, v..

(16) - Carta de D. João IV para Luís Pereira de Castro, 2 de julho de 1648, in: Eduardo Brasão, A Restauração, pág. 356.

(17) - Arquivo Histórico Colonial, doc. no 641, caixa no 2- Rio de Janeiro.

(18) - Arquivo Histórico Colonial, doc. no 642, anexo ao doc. no 640, caixa no 2- Rio de Janeiro.

(19) - Estes números constam do documento do Arquivo Histórico Colonial, doc. no 641, caixa nº 2- Rio de Janeiro.
Os documentos da História Geral das Guerras Angolanas, Tomo II, página 3 diz que eram doze navios e mil e duzentos homens.

(20) - História Geral das Guerras Angolanas, Tomo II, páginas 478 a 481, notas 5a a 14a de José Matias Salgado.

(21) - Arquivo Histórico Colonial, Consultas Mistas, cód. no 14, folha 157.

(22) - Arquivo Histórico Colonial, Consultas Mistas, cód. no 14, folha 130.

(23) - Arquivo Histórico Colonial, Consultas Mistas, cód. no 14, folha 49.

(24) - Arquivo Histórico Colonial, documentos nos 737, 738, 739, 740 caixa 2 - Rio de Janeiro.

(25) - Documentos Históricos, XX, págs. 93-96, onde se encontram as cartas de Salvador como Governador e Capitão Geral
do Sul.

(26) - Arquivo Histórico Colonial, doc. no 847 - Rio de Janeiro (1660-1674).

(27) - Arquivo Histórico Colonial, Livro dos Autos de Posse e Assentos do Conselho Ultramarino.

(28) - Boxer, Charles. Salvador de Sá e a Luta pelo Brasil e Angola - 1602 - 1686, São Paulo, Brasiliana, 1973, pág. 339 e 340.

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