O SÉCULO XVIII

A DESCOBERTA DO OURO



Os Caminhos do Ouro

Durante os dois primeiros Séculos de colonização do Brasil, a busca de minas de metais e pedras preciosas foi uma verdadeira obsessão e os portugueses nunca perderam as esperanças de encontrar em suas terras riquezas como as encontradas nas terras espanholas. A estimativa bastante subestimada da amplitude do continente sul-americano, levava à convicção de que o Cerro de Potosi não deveria estar muito distante da fronteira brasileira e motivava as buscas em direção ao oeste, sempre resultando em contínuos desapontamentos. A ilusão durou duzentos anos e reclamou muitas vidas antes de se tornar uma espantosa realidade.

Ao final do Século XVII, Portugal e Brasil estavam em situação financeira tão precária que só um Eldorado poderia salvá-los, este Eldorado existia e logo seria encontrado, mas trouxe consigo muitos outros problemas.

Os Governadores do Rio de Janeiro, muitas vezes haviam enviado expedições para o interior em busca de riquezas, mas foram os paulistas com seu sangue ameríndio, que mais se embrenharam pelo sertão, em busca de índios para escravizarem nas suas lavouras e também de riquezas. A discussão acadêmica sobre a descoberta do ouro é tão grande e as informações tão contraditórias e fragmentadas, que não ficam dúvidas de que o ouro foi encontrado quase que simultaneamente em diversas regiões do que é hoje o Estado de Minas Gerais, por grupos diferentes de paulistas entre 1693 e 1695.

Manuel Borba Gato refugiou-se na Região do Rio das Velhas e pode ter descoberto o ouro de aluvião em quantidade compensadora, mas manteve o fato em segredo. Existe também a possibilidade de que o ouro possa ter sido encontrado por aventureiros vindos da Bahia que penetraram em Sabarabuçu pelo Rio São Francisco e pelo Rio das Velhas. Charles Boxer considera que de fato:

"a descoberta do ouro de aluvião nos vales do Rio das Mortes e Rio Doce, ocorreu respectivamente num intervalo de tempo muito pequeno, entre 1693 e 1695."(1)


O Caminho Velho e o Caminho Novo das Minas, mapa tirado do
livro de Eduardo Bueno, Brasil: Uma História - A Incrível Saga
de um País
, pág. 103.

A corrida ao ouro, de início foi intensa e desesperada, fazendo com que a região ficasse povoada de toda espécie de aventureiros e muitos mineiros, com os alforjes cheios de ouro, morreram no caminho sem encontrar um pedaço de mandioca, pelo qual dariam uma pepita. Entre 1697 e 1698 um surto de fome assolou as minas.

Quando as riquezas das Minas começaram a ser descobertas, a jornada até as minas durava cerca de dois meses e meio e havia dois caminhos para se atingir a região:

  • o primeiro, mostrado no mapa, era seguido pelas bandeiras, ia de São Paulo até o Rio São Francisco, acompanhando o Rio Paraíba através da Serra da Mantiqueira até o Rio Grande, onde se bifurcava para o Rio das Velhas e Doce. Por volta de 1700 uma ligação para este caminho já existia vindo do Porto de Parati e do Rio de Janeiro, este caminho ficou conhecido como Caminho Velho e se reunia ao caminho inicial em Taubaté, daí em diante a estrada se fundia até chegar aos campos auríferos. Em 1710 foi aberto outro caminho que ficou conhecido como Caminho Novo, que era mais direto e entrava pelo interior atingindo Juiz de Fora e daí a região do ouro. Esta foi a primeira estrada oficial da Colônia;

  • o segundo vinha da Bahia e Pernambuco seguindo a margem direita do Rio São Francisco até o Rio das Velhas, este era o caminho mais longo mas também mais fácil do que as trilhas montanhosas de Parati e São Paulo.

A corrida desencadeada no início da descoberta do ouro, fez com que D. João de Lencastre previsse que o ouro encontrado em Minas encontraria caminho rápido para nações estrangeiras, o que veio realmente a acontecer dez anos depois, conforme o jesuíta Antonil e o Conselho Ultramarino deploraram de forma idêntica.(2) Isto ocorreu muito embora o Governador do Rio de Janeiro Artur de Sá e Meneses (1697-1702) tivesse visitado várias vezes São Paulo e a região das Minas. Durante as suas ausências deixava o governo da cidade, interinamente com Martim Correia Vasques e Francisco de Castro Morais.

Em 1701, D. João de Lencastre fechou a estrada do Rio São Francisco e proibiu a ida às minas de qualquer pessoa que não tivesse um passaporte assinado por ele próprio, Governador Geral do Brasil ou pelos Governadores do Rio de Janeiro ou de Pernambuco. Mas esta medida impedia também que fossem levados às regiões das Minas os suprimentos necessários à população e por isto ela se tornou inócua. Igualmente inúteis foram as medidas tomadas para limitar o número de negros escravos que entrava em Minas.

Como as autoridades locais eram incapazes de exercer sobre a região das Minas qualquer controle efetivo, as autoridades da Bahia e do Rio de Janeiro procuravam limitar o tráfico e policiar os caminhos que levavam à região, providência que também obteve pouco êxito.

Segundo Antonil:

"Em 1709, calcula-se com razoável grau de possibilidade que havia umas 30.000 pessoas ocupadas em atividade mineradoras, agrícolas e comerciais, em Minas Gerais."(3)

Apesar dos exageros das estimativas que apresentam um número de 800.000 de pessoas chegando da terra-mãe para as Minas entre 1705 e 1750, sabe-se que a corrida à região foi bastante grande.(4) Em 1720, Portugal limitou a emigração para o Brasil. Outro tipo de pessoa que migrava para a região eram os desertores das guarnições da Bahia, Rio de Janeiro e da Colônia do Sacramento, fato que comprometia a segurança dos portos do mar.

A região mineira foi explorada, ocupada e em menor escala, colonizada com rapidez espantosa, dos arraiais mineiros vizinhos surgiram as atuais cidade como Ouro Preto, Sabará e São João Del Rei. Em menos de meio século a população da região mineira ultrapassou os 600 mil habitantes, enquanto toda a população do Brasil e de Portugal não passava de 4 milhões.

Artur de Sá nomeou vários funcionários que deviam zelar pelos interesses da Coroa: na cobrança nos diversos distritos dos impostos que representava 20% do ouro oficialmente declarado, o que era conhecido como o quinto; no leilão das datas da Coroa e no confisco das mercadorias contrabandeadas. Manuel Borba Gato, pioneiro paulista estava entre os funcionários da Coroa. O Governador estabeleceu centros de inspeção nos caminhos principais que levavam á saída da região.

A quantidade de ouro que deixava minas através de São Paulo e Rio de Janeiro fosse legal ou ilegal era menor do que a parte que chegava à Bahia pela Estrada do São Francisco, mas ambos fugiam ao controle da Coroa que não tinha como evitar o escoamento descontrolado. A primeira medida efetiva para controlar o movimento do ouro foi estabelecer a Casa da Moeda no Rio de Janeiro, o que foi feito em 1697, no local onde funcionava o Armazém Del Rei, lá foi instalado também os fornos e a fundição real para processar o ouro que vinha das Minas.

Em 1699, foram extraídos das minas cerca de 725 kg de ouro, este número subiu para 1.785 kg dois anos depois e para 4.380 kg em 1703. O aumento foi progressivo e atingiu um total de 14.500 kg em 1712.(5)

"Antonil avalia que menos de um terço do ouro realmente retirado das minas era declarado e outra autoridade da época alega que menos de um décimo encontrava, eventualmente, o caminho das fundições e da Casa da Moeda."(6)

Se os mineiros tivessem se mantido unidos poderiam ter desafiado o controle da Coroa, mas não foi o que aconteceu e as divergências que colocava em oposição os paulistas de um lado, que queriam a exclusividade na mineração e os "forasteiros" vindos de todas as partes e que eram conhecidos como emboabas de outro, fez com que, em 1707 eclodisse a Guerra dos Emboabas. A guerra, que durou três anos, deixou centenas de mortos, até o último combate em 22 de novembro de 1709, quando os paulistas desistiram de tomar o arraial onde os emboabas estavam entrincheirados, deu oportunidade à Coroa de intervir e firmar sua autoridade na região.

A Guerra dos Emboabas fez com que o novo Governador do Rio de Janeiro, Antônio de Albuquerque Coelho de Carvalho logo que assumiu o Governo, em 1709, tivesse que viajar para as Minas para tentar debelar a Guerra cujos germens o seu antecessor não havia conseguido deter. Pacificada a região D. Antônio sugeriu à Metrópole a criação da Capitania Real de São Paulo e Minas Gerais, devido à distância deste território, onde se desenvolvia grande atividade e que se povoava densamente, do Rio de Janeiro, fato que dificultava a ação eficiente da administração. A sugestão foi aceita e D. Antônio de Albuquerque foi o 1º Governador da nova Capitania.

Antônio da Albuquerque era de família da Beira, da aristocracia secundária, que de há muito tempo estava relacionada com o Brasil e a Capitania do Maranhão. Foi a primeira autoridade da Coroa a ser recebido em Minas com real respeito. D. Antônio elevou à condição de vila três dos arraiais da região: Ribeirão do Carmo em 8 de abril de 1711, Vila Rica de Albuquerque em 8 de julho de 1711 e Nossa Senhora da Conceição de Sabará em 17 de julho de 1711.

D. Antônio conseguiu apaziguar os ânimos na região das Minas e tomou outras providências visando melhorar a administração local, para facilitar a cobrança dos quintos e para fazer a distribuição justa das datas mineiras e de sesmarias, entre emboabas e paulistas. Garantiu às forças rivais um equilíbrio de forças nas Câmaras municipais recentemente criadas.

Em meio à situação de pacificação e de organização da Capitania, Albuquerque recebeu a alarmante notícia da invasão do Rio de Janeiro pela expedição francesa comandada por Duguay-Trouin. O destino da cidade estava na balança e ele sem perder tempo levantou tropas de socorro, equipou-as e marchou para o litoral para prestar socorro à cidade neste momento de dificuldade.

O ouro das Minas foi a maior reserva de ouro do mundo e nunca se tirou tanto ouro de uma região. Depois de Minas foi encontrado ouro também em Goiás, na Bahia e em Mato Grosso.

Mas as riquezas descobertas não se limitaram apenas ao ouro, em 1727, num lugarejo conhecido como Arraial do Tijuco, hoje Diamantina, foi encontrada uma grande lavra com os mais reluzentes diamantes. Esta notícia fez com que D. João V exultasse juntamente com todo Portugal. No Tijuco, a alegria durou pouco, porque a política que Portugal instaurou no Distrito para controlar a exploração e a saída das pedras preciosas foi das mais repressivas e opressoras da colonização européia na América, a região dos diamantes foi totalmente isolada e só se podia entrar e sair dela com autorização.

O Brasil jogou tantos diamantes no mercado europeu que o preço do quilate caiu 75%. Dos seis contratantes que detiveram o poder de explorar os diamantes, quatro caíram em desgraça depois que o Marquês de Pombal assumiu o comando da Corte em Lisboa. Ao longo de sete décadas, 1740 a 1810, o Brasil produziu cerca de três milhões de quilates. Nesta época mais de dez mil escravos trabalharam nas minas.

Estas descobertas tiveram profundas repercussões no mundo português: o interior do Brasil começou a ser ocupado em massa; a mão-de-obra escrava e livre das plantações das cidades costeiras foi atraída para a exploração mineira, tornando-se a mão-de-obra na lavoura escassa e causando o aumento do preço do açúcar; aumentou a procura de escravos para as minas e para as plantações.

O governo de Portugal endividado, com uma nobreza falida e uma burguesia indigente, num prazo de vinte anos se transformou no maior produtor de ouro do mundo. O ouro do Brasil permitiu a retomada de entrada de reservas em Portugal e ele pode se recompor financeiramente.

Portugal vivenciou tempos de uma Monarquia Ilustrada e rica e a Corte teve seus dias de grandiosidade e esplendor. Se o quinto enviado para Portugal foi suficiente para enriquecer Portugal, pode-se imaginar o que não ocorreu na Colônia que ficou com quatro quintos que passaram a circular no mercado, deve ter servido para enriquecer grande parcela da população, principalmente negociantes, capitalistas e mercadores que viviam em sua maior parte nas Capitanias do Rio de Janeiro e de Minas Gerais. Esta concentração de riquezas causou fortes mudanças econômicas, sociais e culturais que refletiram na vida das vilas e das cidades.

Antes da descoberta do ouro das minas, a disposição legal sobre a tributação do ouro se resumia às Ordenações Manuelinas, de 1521, que estipulava que um quinto do minério extraído deveria pertencer à Coroa. Com a riqueza aflorando da terra e a dívida externa de Portugal sendo duas vezes superior à sua renda, as Minas sofreriam uma das mais altas tributações já conhecidas.

Os mineradores pagavam o quinto, mas também tinham de pagar: os "direitos de entradas", sobre os produtos vindos de fora, que às vezes chagava a 75% do valor da mercadoria no Porto do Rio de Janeiro; os "direitos de passagem" que era um pedágio cobrado nos rios; os dízimos para Igreja e o "subsídio voluntário" criado pelo Marquês de Pombal, para reconstrução de Lisboa, depois do terremoto de 1755. Todas as estradas, rios e passagens possuíam casas de registro e o ouro só podia circular em barras ou com um guia.

Em 1713, os mineradores ofereceram, em troca da suspensão do quinto, uma finta de 30 arrobas anuais à Coroa, que foi baixada para 25 em 1718 e aumentada para 37 em 1719.

Ao receberem suas datas, os mineiros tinham que pagar um dízimo para cobrir os ordenados dos superintendentes, guarda-mares, guardas menores, oficiais e policiais que patrulhavam a região. Mas calcula-se que 35% do metal extraído era contrabandeado. A legislação mudou em 1701, 1713, 1715, 1718, 1719, 1725, 1730 e 1750. Em 1735 quando Gomes Freire quis estabelecer um imposto de 17 gramas por ano por escravo, os mineradores ofereceram uma finta de cem arrobas anuais à Coroa.

Além da quantidade de ouro declarado oficialmente e que pagava o quinto havia grande parte não declarada, que se mantinha fora do controle e alimentava a prática de grande quantidade de atividades clandestinas. A Corte sabia e tentava impedir a sonegação de impostos, que se tornava prática comum no Brasil e também combatia a possibilidade de ourives da Colônia cunhar moeda sem controle do Governo. Em 1742, o Governador Mathias Coelho de Souza baixou um bando com a finalidade de estabelecer uma zona da cidade em que todos os profissionais de ourivesaria ficassem confinados com suas oficinas.(7)

O contrabando de ouro utilizava frequentemente uma forma bastante interessante que era a Santa do Pau Oco, que carregava ouro em seu interior. O Museu Histórico Nacional possui magníficos exemplares deste tipo de santo.

O período mais importante do ouro no Brasil ocorreu no reinado de D. João V, entre 1706 e 1750, o período foi marcado pelo desvario típico dos que enriquecem depressa, além do costume de presentear amigos com caixotes de ouro, o rei encheu a cidade de obras faraônicas. A riqueza era grande e pouco se ligava para os negócios de Estado. D. João V foi contemporâneo do rei Sol, Luís XIV e desejou imitá-lo inaugurando urna era dourada de absolutismo em Portugal e construiu o gigantesco Palácio-Mosteiro de Mafra - 1717 a 1735, para rivalizar com o Escorial e com o Palácio de Versalhes, gastando a maior parte do ouro que chegava a Portugal. Construiu também o Aqueduto das Águas Livres - 1732 a 1748, que transportou pela primeira vez água potável para Lisboa e foi de grande utilidade e aceitação popular. D. João pode também contratar para trabalhar em Portugal artistas estrangeiros para participarem das obras que pretendia realizar.

Neste mesmo período estreitaram-se os laços entre Portugal e Inglaterra, com a riqueza do ouro, os ingleses incrementaram o relacionamento com Portugal, sobretudo após o Tratado de Methuen, em 1703, pelos quais os ingleses tornaram-se fornecedores do que Portugal exportava para o Brasil e de alimentos que Portugal já não produzia, enquanto a Grã-Bretanha imporia taxas preferenciais para os vinhos portugueses. A partir do tratado, acentuou-se em Portugal o domínio comercial dos ingleses, que acumularam grande quantidade de ouro, pois os portugueses compravam muito mais do que vendiam e desta maneira quase todo o ouro arrancado das entranhas de Minas Gerais passaram por Lisboa e foram parar na Inglaterra. Aos poucos os comerciantes ingleses tornaram-se os senhores de todo o comércio português com a Europa.

Em 1770 a produção de ouro brasileiro começou a declinar desastrosamente, e Portugal não soube aproveitar seu período de riqueza, em vez de ter utilizado seus recursos para se industrializar e pagar suas dívidas endividou-se cada vez mais e manteve a estrutura do século XVI, decretando assim sua falência e ficando subjugado totalmente à Inglaterra. Todo o ouro do Brasil passava pela nobreza portuguesa e ia enriquecer a burguesia inglesa. A Espanha também teve sua crise, mas não foi tão monstruosa quanto a de Portugal.


Gravura de Rugendas: Lavagem de ouro de Itacolomi, da Biblioteca Municipal Mário de Andrade, tirada do livro de Eduardo Bueno, Brasil: Uma História - A Incrível Saga de um País, pág. 107.
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As Revoltas Mineiras

A cobrança de tantos impostos sobre o ouro que era extraído das minas causava descontentamento na população. Em 1720, houve uma revolta contra o Governador de Vila Rica de Ouro Preto, mas ela foi logo sufocada e a autoridade real não foi mais contestada por um período de quase setenta anos.

O declínio da mineração, a partir de 1760, gerou tensões sociais com o número crescente de vagabundos e mendigos, aumentou as fugas e as rebeliões de escravos e intensificaram as manifestações de devoção religiosa. Outra conseqüência do esgotamento das lavras de ouro foi o aumento da dívida da Capitania perante a Real Fazenda, porque a cobrança do quinto estipulava uma arrecadação mínima anual de cem arrobas, o que cada vez era mais difícil de atingir.

O Governo ameaçava uma derrama, que era a cobrança forçada do valor total em atraso. Por outro lado, já havia chegado ao Brasil e às Minas o pensamento ilustrado francês e as notícias dos fatos que tinham levado à Declaração de Independência das Colônias Inglesas em 1776, que fazia as pessoas sonhar com as reformas que pudessem diminuir a irracionalidade da administração colonial.

Em 1788, Luis Antonio Furtado de Mendonça, o Conde de Barbacena, sobrinho do Vice-Rei D. Luís de Sousa Vasconcelos foi nomeado Governador das Minas, com ordens expressas para cobrar a derrama, que foi marcada para fevereiro de 1789.

As tensões se intensificaram e se transformaram em conspiração. Os conspiradores careciam de recursos e de planejamento e além de tudo foram denunciados, por Silvério dos Reis, o que os levou à prisão seguida de uma devassa que levou ao confisco de seus bens. Os inconfidentes ficaram presos na Cadeia do Rio de Janeiro até 1792, quando foram julgados em 18 de abril na sala do Tribunal do Rio, numa seção que durou dezoito horas.

Alvarenga Peixoto, José Alves Maciel, Luís Vaz de Toledo Pisa, Francisco de Paula Freire de Andrada e Domingos de Abreu Vieira partiram para o exílio em Angola em 5 de maio de 1792. No dia 23, zarpava o navio que levava para Moçambique, Tomás Antonio Gonzaga, Vicente Vieira da Mota, José Aires Gomes, João da Costa Rodrigues, Vitorino Gonçalves e Salvador do Amaral Gurgel. Os padres implicados foram julgados em Lisboa. Cláudio Manuel da Costa foi encontrado morto na Casa dos Contos, em Vila Rica em 4 de julho de 1789.

A sentença foi pronunciada em nome de D. Maria I (1777-1816), Rainha de Portugal desde a morte de seu pai D. José, mas que estava louca desde o início de 1792.


Percurso feito por Tiradentes em direção à forca em 21 de abril de 1792, mapa tirado do livro de Nireu Cavalcanti. O Rio de Janeiro Setecentista – A Vida e a Construção da Cidade da Invasão
Francesa até a Chegada a Corte
. pág. 338.(8)
Apenas Joaquim José da Silva Xavier, conhecido por Tiradentes, que era de fato um personagem secundário da rebelião foi condenado à forca e executado em 21 de abril de 1792. Tiradentes pode ter sido um bode expiatório no desfecho da Conjuração Mineira, mas a decência com que se comportou durante o longo, lento e tortuoso processo judicial e a altivez com que enfrentou a morte, fizeram com que ele se transformasse não apenas na maior figura do movimento, mas uma das mais importantes figuras da História do Brasil. Tiradentes assumiu toda a responsabilidade pelo movimento e atraiu para si toda a culpa.

Pouco lembrado no Período Monárquico, um século depois, a figura de Tiradentes seria resgatada na campanha republicana e transformada em símbolo de heroísmo pela nascente República do Brasil e o dia de sua morte passou a ser comemorado como data nacional.(9)

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A Sentença de Tiradentes


Vista tirada da estátua de Tiradentes em frente à Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro, numa solenidade com crianças e autoridades, lembrando a data de sua morte, tirada da Revista
Nossa História da Biblioteca Nacional, Ano 1, no 3 de janeiro
de 2004, pág. 83.

"Pelo abominável intento de conduzir os povos da capitania de Minas a uma rebelião, os juízes deste tribunal condenam ao citado réu a que, com baraço e pregão, seja conduzido pelas ruas públicas ao lugar da forca e nela morra a morte natural para sempre, e que depois de morto lhe seja cortada a cabeça e levada a Vila Rica, onde em lugar mais público dela será pregada, em poste alto até que o tempo a consuma; e o seu corpo será dividido em quatro, e pregado em postes, pelo caminho de Minas, onde o réu teve suas infames práticas, até o tempo também os consuma; e declaram o réu infame, e seus filhos e netos, e os seus bens aplicam para o Fisco, e a casa em que vivia em Vila Rica será arrasada e salgada, para que nunca mais no chão se edifique, e no mesmo chão se erguerá um padrão, pelo qual se conserve a memória desse abominável réu."(10)

 

(1) - Charles R.. Boxer. A Idade de Ouro do Brasil – Dores de Crescimento de uma Sociedade Colonial, pág. 62.

(2) - André João Antonil. Cultura e Opulência do Brasil por suas drogas e minas. Livro 3, cap. 17. Consultas do Conselho Ultramarino, 1708-1709, apud BOXER, Charles R.. A Idade de Ouro do Brasil, nota 18, pág. 83.

(3) - Charles R.. Boxer. A Idade de Ouro do Brasil – Dores de Crescimento de uma Sociedade Colonial, pág. 72.

(4) - Simão Fereira Machado, Triunfo Eucarístico, Lisboa, 1734, pág. 18. "... viose em breve tempo transplantado meyo Portugal a este empório"; A Ellis, O ouro e a paulistânia, pág. 213-216; A. de Lima Júnior, A Capitania de Minas Gerais, 1943, pág. 75-83; Syilvio de Vasconcellos, Vila Rica, pág. 23 apud BOXER, Charles R.. A Idade de Ouro do Brasil, nota 32, pág. 84.

(5) - V. Magalhães Godinho, Le Portugal, les flottes du sucre et les flottes de l’or, 1670 a 1770, Annalles, fev./mar., 1951, pág. 192-193 apud BOXER, Charles R.. A Idade de Ouro do Brasil, pág. 80 e nota 48, pág. 85.

(6) - Charles R.. Boxer. A Idade de Ouro do Brasil, pág. 80.

(7) - Bando sobre moedas falsas e para que os ourives se submetessem a um arruamento. AHUL, Castro Almeida, Rio de Janeiro, caixa 44, doc. 11.720 (14.5.1742) apud CAVALCANTI, Nireu. O Rio de Janeiro Setecentista – A vida e a Construção da Cidade da Invasão Francesa até a Chegada da Corte. pág. 91 e nota 130 da pág. 136.

(8) - Foi o seguinte o trajeto seguido por Tiradentes a caminho da forca: saiu da Cadeia que ficava no local onde hoje se encontra a Assembléia Legislativa, na Rua Direita atual Rua Primeiro de Março, seguiu pelas Ruas da Cadeia e do Piolho atuais Ruas da Assembléia e da Carioca, passou pelo Campo da Lampadosa onde hoje é a Praça Tiradentes e entrou na Rua do Real Erário, atual Avenida Passos. Parou na Igreja da Lampadosa onde fez suas últimas preces e seguiu para a forca que ficava na esquina da Avenida Passos com a Rua Senhor dos Passos.

(9) - Revista Nossa História, Uma publicação Editada pela Biblioteca Nacional, FONSECA, Thais Nívia de Lima e "A imagem do herói". Ano 1, no 3, janeiro de 2004, página 83.

(10) - Eduardo Bueno. Brasil: Uma História – A incrível Saga de um País, pág. 130.


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