O Século XVIII A Superação de
Tordesilhas
A Descoberta do Ouro O Povo sob o Medo
das Invasões Francesas
O Rio de Janeiro passa
a ser Capital do Brasil
O Tempo dos Vice-Reis O Espaço Urbano do
Rio de Janeiro

O SÉCULO XVIII

O RIO DE JANEIRO PASSA A SER CAPITAL DO BRASIL



Gomes Freire de Andrada - O Conde de Bobadela - Último Governador do Rio de Janeiro - 1733-1763

Gomes Freire de Andrada, foi o último Capitão-Governador do Rio de Janeiro e o que por mais longo tempo exerceu o cargo, governou durante trinta anos. Neste extenso período, grande soma de serviços prestou à cidade. Sua ação não se limitou apenas ao Rio de Janeiro, pelos poderes de que foi investido, estendeu sua atividade a todo o território meridional, incluindo as Minas Gerais, São Paulo, Goiás, Santa Catarina, Rio Grande do Sul e Colônia do Sacramento. Mas apenas falando em relação ao Rio de Janeiro, os serviços e iniciativas de Gomes Freire são muito variados e extensos:

  • Construiu os novos Arcos da Carioca, que ficou pronto em 1750 e que até hoje enfeita a paisagem carioca, em substituição aos Arcos Velhos construídos por Aires de Saldanha, que foi Governador entre 1719 e 1725, mas que tinham se revelado precários;

  • Edificou o Paço dos Governadores, depois dos Vice-Reis, Real e Imperial sucessivamente, para dar à cidade uma sede digna de sua importância. O prédio foi construído, entre 1744 e 1750, no local onde antes funcionava o Armazém Del Rei e lá se encontra até hoje como Centro Cultural Paço Imperial;

  • Promoveu a construção do Convento de Santa Teresa, onde está sepultado e a cujas freiras, a quem chamava de suas filhas, foi sempre muito dedicado;

  • Construiu o Convento da Ajuda construído em 1750 e demolido em 1911;

  • Levantou no Terreiro do Carmo um chafariz levando até ele a água que vinha do Largo da Carioca, através de um cano que passava pela Rua do Cano, atual Sete de Setembro. Este chafariz, posteriormente, foi removido por D. Luís de Vasconcelos;

  • Construiu a Casa do Trem, com o objetivo de armazenar material bélico, o local possuía uma oficina para conserto de armas e uma fundição;

  • Ampliou as obras de defesa da cidade;

  • Reformou a Casa da Câmara para nela instalar o Tribunal da Relação;

  • Iniciou a construção de uma Sé Nova para a cidade, no Largo da Sé atual Largo de São Francisco, mas o projeto não foi adiante e no local foi depois construída, já no tempo de D.João, a Academia Real Militar;

  • Deu início ao Hospital dos Lázaros, recolhendo os leprosos que vagavam pela cidade a duas casas localizadas em uma chácara em São Cristóvão;

  • Mandou reconstruir a Fortaleza da Ilha das Cobras e construiu a Fortaleza da Conceição, em 1743, onde até hoje se acham localizados serviços do Exército;

  • Abriu ruas e estradas, construiu pontes e realizou muitas outras obras de melhoramento urbano.

Em todos os trabalhos de construção que Gomes Freire promoveu, teve a participação do engenheiro militar Brigadeiro José Fernandes Pinto Alpoim, que foi seu braço direito.

Nos serviços de administração propriamente dita, introduziu normas e regulamentos para lhes dar maior eficiência. Reorganizou as tropas da guarnição, formando-as em regimentos. Continuou a obra de Vahía Monteiro, que governou a cidade de 1725 a 1732, na repressão ao contrabando do ouro. Restabeleceu a ordem nos Campos dos Goitacases onde se esboçara um movimento de rebelião contra as autoridades. Conseguiu realizar a cobrança de novos tributos decretados pela Coroa e que a princípio haviam provocado movimentos de protesto entre as populações de São Paulo e Minas. Decretada a expulsão dos jesuítas e confisco de suas propriedades, executou a medida com muito tato, mas rigorosa precisão.

Durante as suas ausências, nas viagens que fez a São Paulo, Minas, Goiás, Santa Catarina, e ao Sul para tomar posse do Território das Missões e demarcar as fronteiras com os domínios de Espanha, foi interinamente substituído, nas diversas ocasiões, no governo da cidade por Matias Coelho de Sousa, Patrício Manuel de Figueiredo e José Antônio Freire de Andrada, seu irmão.

Ausentando-se da cidade, Gomes Freire sempre deixou aos seus substitutos eventuais minuciosas instruções que assegurassem a continuidade de sua política. Incentivando o apreço pela cultura, Gomes Freire reuniu no palácio, em duas ocasiões, os intelectuais da terra com o propósito de instituir uma associação de letrados. Entretanto, a Academia dos Felizes, de 1736, e a Academia dos Seletos, de 1752, não tiveram vida longa, ou por lhes faltarem elementos de vida, ou por terem sido olhadas com desconfiança pelo poder real.

Destes ensaios culturais nasceu a primeira tipografia fundada no Rio de Janeiro por Antônio Isidoro da Fonseca, em cuja oficina parece ter sido impresso o Exame de Bombeiros, de autoria do Brigadeiro José Fernandes Alpoim, além de outras publicações de menor vulto. A Corte de Lisboa, porém, sempre receosa das idéias subversivas que a expansão da cultura poderia propagar na colônia, onde se esforçava por manter a ignorância, mandou que fosse destruída a oficina de Isidoro da Fonseca e queimados os seus maquinismos.

Foi no período de Governo de Gomes Freire que, por Provisão Real, de 1757, a Câmara do Rio de Janeiro recebeu o título e as prerrogativas de Senado da Câmara que conservou até a Proclamação da Independência quando, pela Constituição do Império, passou a ser Ilustríssima Câmara Municipal.

Em reconhecimento aos relevantes serviços prestados, foi Gomes Freire de Andrada, em 1758, agraciado com o título de Conde de Bobadela. Pela mesma razão permitiu o rei que, como honrosa exceção, o Senado da Câmara mandasse colocar em seu espaço o retrato do Governador, pintado por Manoel da Cunha e Silva.

Em fins de 1762, não ousando enfrentar as forças de D. Pedro Ceballos, Governador de Buenos Aires, Vicente da Silva da Fonseca, que comandava a guarnição da Colônia do Sacramento, entregou a praça aos espanhóis. Recebendo a notícia dolorosa, teve Bobadela tão grande indignação e desgosto que, achando-se enfermo, os seus padecimentos se agravaram subitamente, vindo a falecer em 10 de janeiro de 1763. De acordo com os seus desejos, foi sepultado na Igreja do Convento de Santa Teresa onde seus restos jazem num mausoléu mandado erguer pelas freiras que se recusaram a cumprir a sua vontade de repousar em campa simples sem nenhuma inscrição que a assinalasse.

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Relação dos Capitães-Governadores que a cidade teve no Século XVIII

Artur de Sá e Meneses - 1697 -1702 D. Álvaro da Silveira e Albuquerque - 1702-1705 D. Fernando de Mascarenhas - 1705-1709 Antônio de Albuquerque Coelho de Carvalho (primeiro governo)- 1709 Francisco de Castro Morais - 1710-1711 Antônio de Albuquerque Coelho de Carvalho (segundo governo) - 1711-1713 D. Francisco Xavier de Távora – 1713 – 1716
Manuel Castelo Branco – 1716 Antônio de Brito e Meneses - 1716-1719 Aires de Saldanha - 1719-1725 Luís Vahía Monteiro - 1725-1732 Manuel de Freitas da Fonseca - 1732-1733 Gomes Freire de Andrada – 1733–1763 Junta Governativa – 1763
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Transferência da Capital do Brasil para o Rio de Janeiro

No plano mais geral a transferência da capital do Brasil, fazia parte do movimento de estreitamento dos controles da Coroa sobre o território da Colônia, característica do Governo Pombalino. Do ponto de vista imediato decorreu da necessidade de organizar as defesas do Sul em virtude da Guerra dos Sete Anos e da importância estratégica e econômica que a região adquiriu com a descoberta das Minas.

A escolha sobre o Rio de Janeiro não foi concebida de maneira intempestiva, mas foi resultado de um processo que já vinha se delineando a alguns anos como conseqüência das transformações que vinham ocorrendo na cidade: onde se encontravam localizadas as principais forças militares da Colônia; onde se concentravam as negociações e o controle do Sul e muitas vezes até do Norte; onde ficava o Porto de maior importância do Brasil e onde a descoberta do ouro da região das Minas teve grande impacto no desenvolvimento, porque a cidade passou a concentrar as maiores riquezas da Colônia e passou a ser o principal escoadouro do metal e dos diamantes das Gerais.

A transferência atendia aos interesses da Coroa, mas também tornava oficial uma situação já existente de fato, levado pelas diversas melhorias urbanas realizadas na cidade do Rio de Janeiro.

O Rio de Janeiro era então governado por Gomes Freire de Andrada, seu último Governador, que veio a falecer em janeiro de 1763, após uma doença rápida, mas fulminante. Com sua morte se perdia um grande negociador das questões dos limites do Brasil. Estas questões eram extremamente delicadas e representava um segundo ponto de ameaça à integridade do território do Brasil, porque além da constante ameaça francesa contava também com o perigo espanhol, que tinha como objetivo as disputadas praças do Sul, que lhe faziam fronteira, incluindo a Colônia do Sacramento e mais a região do Rio Grande e de Santa Catarina.

Se o ataque francês ao Rio de Janeiro não foi realizado, o espanhol se concretizou, porque diante da dificuldade da retirada dos portugueses da Colônia do Sacramento, o Governador de Buenos Aires, D. Pedro de Cevalhos planejou um ataque aos fortes portugueses com o objetivo de expulsar os portugueses e conseguiu chegar até o Viamão, no Rio Grande. Mas os Tratados de Paz, pondo fim à Guerra dos Sete Anos, pôs fim também aos conflitos no Sul do Brasil.

A morte de Gomes Freire e a necessidade de ter no Rio de Janeiro um Governador forte contribuíram para a decisão de se transferir a Capital para o Rio de Janeiro. Em 11 de maio de 1763, foi nomeado o Conde da Cunha, para Vice-Rei do Brasil, com a ordem de residir na cidade do Rio de Janeiro. O novo Vice-Rei tomou posse a 21 de dezembro de 1763.(1)

O Rio de Janeiro como capital do Brasil vinha consolidar o destino desta cidade nascida sobre o signo das grandes transformações do mundo renascentista, com características de independência e aberta para o mundo, com vocação mercantil. A centralidade da cidade se impunha a todo o Império Português e também às demais potências européias.

Por outro lado o Rio de Janeiro se tornava capital num momento delicado para Portugal no contexto internacional, diante da disputa travada pelas nações européias para manter suas conquistas nas regiões ultramarinas, novamente refletindo um momento de grandes transformações culturais e econômicas que modificaram o mundo, a Época das Luzes. Portugal necessitava de um importante ponto de defesa de suas posses no Novo Mundo, frente às outras nações. A Inglaterra após a Guerra, adquiriu o predomínio sobre todas as nações européias e passou a considerar que poderia conquistar todos os domínios ultramarinos.

 

(1) - AHU, Rio de Janeiro, Avulsos, Cx. 76, doc. 43. Ofício do Conde da Cunha, de 21 de dezembro de 1763, in BICALHO, Maria Fernanda. A Cidade e o Império – O Rio de Janeiro no Século XVIII, nota 4, pág. 100.


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