A REPÚBLICA VELHA - 1889-1930
INTELECTUAIS E CULTURA
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Jeca Tatu foi criado em 1910, simbolizando o caráter nacional, uma discussão recorrente, mas que teve repercussão entre 1910 e 1920, num momento em que a ideologia do "racismo científico" era bastante aceita, explicava o caráter nacional, em virtude das raças que formavam o Brasil. Jeca Tatu foi inserido na discussão sobre as possibilidades de mudar o Brasil. O "racismo cientifico" teve sua época áurea entre 1870 e 1930, ele procurava explicar biologicamente o caráter dos homens, era considerado científico porque foi produzido pela antropologia e pela sociologia, isto é, pelas ciências do século XIX. A ciência não é uma verdade absoluta, mas apenas uma forma de apreensão do conhecimento estando sujeita a ser transformada pelo próprio conhecimento. Destacaram-se como pensadores racistas:
Estas visões levavam ao determinismo racial, que estabelecia que a genética e a biologia eram mais importantes para a formação do homem que o ambiente em que ele vivia. Para entender o caráter nacional do brasileiro seria preciso estudar a sua formação étnica: o português, o índio e o negro, que eram três raças inferiores, formando assim uma raça degenerada. A mistura racial vantajosa seria entre anglos e saxões, as funestas seriam as dos portugueses e índios, cujo produto possuía um comportamento desviante. Entre 1830 e 1870, a elite intelectual brasileira não havia sido ainda contaminada por estas ideologias, como podia ser visto pelo Romantismo que exaltava o índio, mas posteriormente estas posições influenciaram o pensamento brasileiro e as elites, quando os pensadores brasileiros passaram a ser racistas, mas não podiam pensar que o Brasil era inviável porque pertenciam a esta raça inferior, por isto eles inventaram soluções para melhorar a situação, como exemplo pode ser citado a Teoria do Branqueamento, que seria conseguido com a importação de imigrantes da Europa para se misturassem com a raça existente que então seria melhorada. Na Argentina a solução para melhorar a população era vista através da educação e assim cada país criava a sua alternativa. Monteiro Lobato era um liberalista que sofreu a influência do racismo e criou o personagem Jeca Tatu, como o culpado pelo atraso do Brasil, uma pessoa incapaz de evoluir, inadaptável à civilização, impenetrável ao progresso. Representava o caboclo, que seria uma qualidade negativa, numa fase pessimista quando a solução proposta para o Brasil era a imigração italiana. Sua posição entre 1918 e 1919, foi modificada e passou a considerar o povo como vítima e não como culpado pela miséria brasileira, ele seria doente, incapacitado para o trabalho e a culpa passou a ser colocada no sistema, no Governo que não proporcionava saúde pública e a saída seria o saneamento que curasse o povo de sua doença. O Jeca Tatu não era assim ele estava assim. Entre 1930 e 1940, a questão brasileira passou a ser discutida através da industrialização: ferro e petróleo. O progresso deveria chegar pela energia o petróleo e a máquina, o ferro e a solução para o Brasil seria inserir o povo no processo como trabalhador no método do fordismo, técnica de produção em série, que fazia parte da sociedade moderna, industrializada, integrada à lógica capitalista. |
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Desde o final do século XIX, entre 1894 e 1896, que foram anos de crise surgiu uma série de trabalhos históricos sobre o caráter nacional, no entanto o período entre 1903 e 1934, foi mais rico em relação ao assunto, pois contou com o apoio de militantes e figuras políticas, antigos monarquistas e desencantados com a República, que fizeram um diagnóstico do Brasil. Entre os personagens que mais se destacaram podemos citar: Eduardo Prado; Oliveira Viana; Oliveira Lima; Manoel Bonfim; Alberto Torres; Euclides da Cunha e Gilberto Freyre; toda uma geração que estava militando na política e na imprensa, que não tinha uma proposta para o Brasil, mas tinha uma série de diagnósticos alicerçados em sólidos conhecimentos de História e Ciências Sociais, fazendo com que o período fosse de críticas à República. Estes diagnósticos visavam levar o Brasil à modernidade. Alberto Torres (1865-1917) foi um político que nasceu na Província fluminense e chegou a ser Presidente do Estado do Rio de Janeiro. Participou da campanha abolicionista e produziu sua obra na década de 10, mas ela foi republicada nos anos 30. Foi um dos ideólogos do pensamento político autoritário que surgiu ainda na República Velha. Tinha uma vocação messiânica própria dos autoritários, defendia a exploração das riquezas do Brasil por brasileiros e teve influência até na criação da Petrobrás em 1954. Apresentava como contradição o fato de tentar estabelecer um programa para a realidade brasileira, mas usar argumentos retrógrados, com o mesmo discurso de outros políticos. Não se libertou dos preconceitos jurídicos de sua época, mas não chegou ao extremo de seguir idéias como as de Gobineaux. Manuel Bonfim (1868-1932) também escapou dos conceitos de miscigenação, do racismo científico, seguia uma linha que apresentava o atraso do Brasil como decorrência da colonização, dos traços estruturais da colonização ibérica, como por exemplo, a exploração do trabalho servil, não livre, que denominava parasitismo. Criticava o conservantismo que era a manutenção dos privilégios dos ibéricos e o Estado de tradição ibérica que considerava alheio ao povo e que só se preocupava em cobrar imposto. Era um nacionalista e socialista militante de esquerda, que tentava conciliar as duas coisas, num período de pessimismo em relação ao Brasil. Era contra o conceito de Pátria como instrumento da burguesia para dominação e era contra o autoritarismo. Reconhecia a importância da cultura negra e indígena no Brasil, mas achava que sua influência havia sido pequena, considerava que os defeitos imputados aos negros não eram por característica da raça, mas proveniente da escravidão. Em relação aos índios reconhecia o amor à liberdade e admirava a coragem que eles demonstravam. Bonfim conseguiu perceber, no início do século os equívocos das teorias racistas e apontava para resolver os problemas da América Latina a educação para toda a população. Euclides da Cunha (1866-1909) foi o autor de Os Sertões, que foi escrito em 1902 e que ainda hoje é um livro importante, apresentava uma nova forma de interpretar as questões sociais, escreveu procurando uma filosofia para a História do Brasil. Teve influência de Sílvio Romero, por considerar o clima e o ambiente, ou seja, o meio geográfico e a raça, como responsáveis pelos problemas do Brasil, considerava que o negro e o português estavam fora de seu habitat natural. Não aceitava que pudesse haver a raça brasileira pela miscigenação, mas considerava o sertanejo. Gilberto Freire (1900-1987) pertencia a uma família tradicional de Pernambuco, foi aluno e teve influência de Franz Boas, que explicava as características de um povo não como originais da raça, mas da cultura e esta foi a sua linha de pesquisa. Escreveu Casa Grande e Senzala, Ordem e Progresso, Sobrados e Mucamas e Jazigos e Cova Rasa, sempre apresentando uma dualidade antagônica. Em Casa Grande e Senzala, sua mais importante obra, sistematizou a contribuição positiva do negro para a cultura brasileira, mostrando que entre a casa grande e a senzala existia um caminho de mão dupla, as duas coisas se complementavam e a distância entre elas não era tão grande como podia parecer e muito pelo contrário havia muita proximidade. Tentou dar uma explicação para o fenômeno que se via na cultura açucareira, mostrando a sociedade patriarcal na Zona da Mata do Nordeste. Gilberto foi buscar a influência das palavras, da cultura, das alimentações, dos hábitos, criando uma fusão entre a casa grande e a senzala. Os senhores de engenho criavam os filhos legítimos e os bastardos juntos, no mesmo local, com uma fusão étnica e cultural, muito maior do que a que ocorreu com o índio. Sua visão não minimizava as facetas ruins da escravidão, para com a qual ele não manifestava nenhuma simpatia, mas como cientista social ele não podia deixar de registrar o que via ocorrer. Para ele havia conflito e negociação, dominação e fusão. Foi um revolucionário porque rompeu com o conceito de raça para definir o caráter nacional, para ele os traços culturais e comportamentais do povo brasileiro passaram a ser vistos pela cultura. Na literatura brasileira influenciada pelas correntes literárias européias se desenvolveu o Realismo, o Naturalismo e o Parnasianismo em oposição ao Romantismo do período anterior. A Escola Naturalista teve sua maior expressão em Aluísio Azevedo com o Mulato, Casa de Pensão e o Cortiço, que fazia o homem comum aparecerem nos romances. O Realismo teve destaque com Machado de Assis com o seu Dom Casmurro. Na poesia Parnasiana sobressaiu Olavo Bilac que desenvolveu o amor sensual em poesias como Via Láctea. Lima Barreto satirizou a burocracia e as instituições em: Triste Fim de Policarpo Quaresma e os problemas nacionais transpareceram em Urupês e Cidades Mortas de Monteiro Lobato e em Canaã de Graça Aranha. Machado de Assis fundou em 1897, a Academia Brasileira de Letras à semelhança da Academie Française de Lettres, com o objetivo de fortalecer a tradição literária, buscar a pureza da língua e encorajar a literatura nacional. |
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O texto: Que cara tem o Brasil?, falava da imensa diversidade cultural do Brasil e dos conflitos daí originados. Encontrávamos no Brasil diversas etnias, modos de expressão, religiões, costumes e hábitos, diversidade que produzia grande impacto social, o texto mostrava que houve um momento de nossa história que se fez um grande esforço para entender esta diversidade: a década de 20. Nesta época a influência européia, principalmente francesa, diminuiu muito após a Guerra, porque o conflito mundial fez desmoronar muitas fantasias e ilusões. Neste contexto se desenvolveu, no Brasil, o Modernismo. Depois de 1917 cresceu o ardor patriótico e houve uma preocupação unânime em criar a Nação, Olavo Bilac foi uma expressão desta época, liderando uma campanha a favor do serviço militar. O fim da guerra determinou o fim do liberalismo e cada país se viu obrigado a investir em suas potencialidades, inaugurando os nacionalismos. Com a Europa deixando de ser um referencial era preciso que o brasileiro tivesse sua cara e começou a discussão sobre a necessidade de modernizar o país, que ainda tinha uma tradição colonialista muito forte e um processo de industrialização apenas no começo. A República e a Constituição eram liberais, mas a sociedade brasileira ainda possuía valores arcaicos e excludentes e o país era governado pelas oligarquias. O Modernismo pode ser considerado com duas fases: a primeira, entre 1917 a 1924, teve início com a Exposição da pintora Anita Malfati e a segunda entre 1924 e os anos trinta. O modernismo não pode ser confundido como a Semana de Arte Moderna de 1922, que é apenas uma das suas formas de expressão. O Modernismo foi um movimento que se enquadrou na busca do "caráter nacional brasileiro". O Modernismo foi caracterizado pelo fato dos artistas pensarem de forma lingüística em como modernizar o Brasil. Os modernistas pensavam que o ritmo de modernização da cultura brasileira era muito lento e propunham uma revolução na linguagem para se modernizar, uma das formas utilizada por eles foi o humor, utilizado através da caricatura, com a qual se podia criticar o passado bacharelesco de nossas elites. Em 1924 foi feito o Manifesto do Pau-brasil, onde era proposta a antropofagia - a deglutição da cultura. Os modernistas se preocuparam em conhecer o Brasil para descobrir sua cultura, estavam voltados para a pesquisa e achavam que a idéia do Brasil pronto e acabado não lhes interessava, queriam saber sobre o que ainda estava para ser construido. O Abaporu (homem que come) de Tarsila do Amaral, passou a significar para os modernistas a imagem do homem brasileiro: onde os pés significavam as raízes culturais colocadas em contato direto com a terra, sorvendo sua seiva, simbolizando a capacidade do brasileiro de absorver as variadas culturas. Entre 13 e 17 de fevereiro de 1922 realizou-se no Teatro Municipal de São Paulo, a chamada Semana de Arte Moderna, que reuniu artistas e intelectuais da cidade e também do Rio de Janeiro, entre eles Villas Lobos. Os modernistas achavam necessário sacudir as elites, para que elas se conscientizassem sobre como estavam sendo esnobes e artificiais. Na 1a fase do movimento foi discutida a modernização da cultura brasileira, e desta forma como adequá-la à cultura universal, ou seja, integrar o Brasil no concerto internacional. Na 2a fase ocorreu uma crítica ao fato de se pensar que não existia uma cultura brasileira, já se pensava em uma mediação, continuavam a pensar em integrar o Brasil, mas através da Nação, da cultura nacional com suas especificidades, pensava-se o Brasil através de suas poesias, suas pinturas e suas músicas. Esta 2a fase criticava a primeira pelo imediatismo, por participar do universalismo sem considerar o "caráter nacional" e pensava em como participar com as características próprias de nossa cultura. Em 1928, Paulo Prado escreveu o livro Retratos do Brasil, estes retratos buscavam duas coisas: a originalidade do Brasil que podia ser integrado ao universal e a unidade do Brasil. No Rio de Janeiro em 1922 surgiu o grupo musical Oito Batutas, com figuras como Pixinguinha e Donga, que estreou no Cinema Palais, na Avenida Central, era um conjunto composto de negros que causou grande impacto da sociedade. Em 1917, o compositor Donga, gravou o primeiro samba: Pelo Telefone, nascido na casa de Tia Ciata, local tradicional de encontro na >Praça Onze, onde ocorriam rodas de capoeira, sambas, rezas, rituais e almoços festivos. Outro local de encontro de intelectuais e artistas era na Festa da Penha. Mario de Andrade, modernista da 2a fase participou do movimento através do livro: Macunaíma – o herói brasileiro: branco, índio e negro; de várias caras e de várias culturas. Foi o autor da idéia de Patrimônio Histórico na época de Getúlio Vargas, pensando a identidade e a unidade nacional. Trabalhando com a etnografia foi capaz de criar uma relação entre cultura primitiva e cultura civilizada, viajou o país todo buscando conhecer as manifestações folclóricas, que eram as tradições móveis como produto de civilizações primitivas, buscou as origens, a gênese da cultura nacional nos índios e nos negros. Como antropólogo foi buscar o totem brasileiro, que caracteriza os ancestrais místicos e considerou que era o boi. Depois da década de 30, o modernismo adquiriu uma forma nova, com a polarização político-ideológica, que foi uma característica mundial e não apenas brasileira, colocando em oposição a direita e a esquerda. Mario de Andrade começou a sofrer críticas de Oswald de Andrade, que foi um dos maiores defensores da arte moderna, porque ele não discutia o problema da politização do caráter nacional, seu engajamento político, como a dependência. Nesta época o grande pintor Portinari, se preocupava em fazer uma denúncia política através de seus quadros. A década de 30 foi a da politização, que iria diminuir a experimentação das artes, porque deu lugar aos modelos partidários, teve um compromisso com a política. Em 1932 ocorreu a Revolução Constitucionalista de São Paulo; em 1934, o Brasil teve uma nova Constituição; em 1935 teve a Intentona Comunista; em 19 37 o Golpe de Getúlio do Estado Novo e em 38 a Revolução Integralista. |
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