A REPÚBLICA VELHA - 1889-1930
A CONSTRUÇÃO DA REPÚBLICA - A CRISE DA REPÚBLICA OLIGÁRQUICA
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A República no Brasil apresentava uma aparente contradição, a coexistência de uma ideologia liberal com os padrões de comportamento oligárquico e tradicional, baseado no autoritarismo e na centralização. Os críticos da República Velha, como Oliveira Viana, consideravam que o liberalismo no Brasil era apenas de fachada, porque como se sabe o liberalismo confere ao Estado os fundamentos doutrinários como estados de direito, democrático e nacional, as regras do jogo político devem ser válidas para todos os cidadãos. Os padrões oligárquicos, no Brasil, no entanto restringiam a participação política aos membros de uma elite vinculada à grande propriedade da terra ou outros setores a ela associados. As discrepâncias existiam também nas relações de produção, porque no Brasil se convivia com relações de trabalho, em muitas áreas semi-servis. Francisco Weffort defende que o liberalismo não era de fachada, porque o liberalismo na Europa instrumentalizava o debate da burguesia contra o Antigo Regime, dos privilégios, pregando a liberdade civil, religiosa, social, de ir e vir, política. Criava regras para uma nova ordem – o Estado burguês, mas também uma ordem político-social de contrato entre homens livres – patrões e empregados. No primeiro momento do liberalismo, no entanto, os trabalhadores estavam excluídos, devido ao voto censitário, na segunda metade do século XIX foi incorporada a igualdade política, os direitos de se organizar em partidos e de votar, ou seja, os direitos de cidadania. O processo de industrialização criou a mão-de-obra na medida em que dela necessitava e desta forma a incorporação dos trabalhadores ao processo político se associou à participação de homens livres na produção. Na América Latina, incluindo o Brasil, a questão era mais complexa, porque as relações de trabalho existentes nas propriedades agrícolas ou pastoris não eram de homens livres, mas relações semi-servis, por isto as relações não eram contraditórias nem de fachada, elas se davam em um ambiente diferente, que necessitava ser estudada de forma especial. A máquina do Estado era monopolizada em conjunto com as oligarquias atrasadas, os trabalhadores do campo tinham relações semi-servis, relações de paternalismo e de dependência, portanto não tinham condições de liberdade para negociar em pé de igualdade. Por outro lado as relações do Estado eram oligárquicas. A América Latina, estava na periferia do capitalismo, e tinha uma economia voltada para o mercado externo, com a grande propriedade agrária e se inseria no capitalismo como tal. A coexistência contraditória era, na verdade, inerente ao modo de ser do Estado-Nação que se estabeleceu nestes países, no processo de expansão do capitalismo industrial sobre a América Latina. O Estado tanto por razões internas quanto por razões externas, estava condenado à etapa chamada pelos economistas de desenvolvimento para fora, a apresentar formas liberais sobre estruturas de conteúdo oligárquico:
O liberalismo dos países da América Latina não podia ser cópia do liberalismo europeu. Existia uma forma de organizar o país internamente e nas suas relações com o exterior para que ele cumprisse o seu papel na organização mundial. Desta forma não se colocava a questão dos trabalhadores, porque não havia legislação trabalhista, tudo se passava como se o país estivesse na fase inicial do liberalismo clássico, em seus primórdios, quando era pensado apenas para os empresários e proprietários. A estrutura liberal assegurava que a massa de trabalhadores não participasse, ficasse excluída. Naquele momento a Nação brasileira era formada da classe proprietária e dos portugueses, não era formada pela totalidade da população. O Estado liberal que nele se formava não podia deixar de ser também oligárquico, porque os grupos oligárquicos modernos, os cafeicultores, se viram obrigados a assumir alianças com os setores mais tradicionais, porque o liberalismo que então se estabeleceu não oferecia alternativa senão limitar-se às elites dominantes. A aparente contradição era apenas a adequação às necessidades de assegurar no interior, com as restrições à participação social e política das maiorias populares, a estrutura dominante adequada à eficaz exploração econômica com vistas ao mercado externo. O Estado não era plenamente soberano em suas relações externas, era apenas parcialmente um Estado no sentido que a história européia o configurou para este conceito. |
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Em 1822 foi criado o Estado Nacional Brasileiro, entre 1889 e 1930 com o novo regime, o país presenciou uma época de "caos" representado: pelo Federalismo; pela Política dos Governadores e pelo Coronelismo. Com a instituição do Federalismo o poder central perdeu força para os Governadores que na época da República Velha eram denominados Presidentes dos Estados.
Nesta época o público e o privado não davam soma zero e não existia antagonismo nesta situação. O Estado podia ter a forma que tivesse: federalismo ou outro, e mesmo assim estar em constante modificação, havendo aumento da Ordem Política. O processo de formação do Estado na República Velha, apresentou avanços significativos, existiu um caráter dinâmico na interação entre a constituição do poder público e o jogo de interesses privados. A definição básica de Estado feita por Mann, influenciada por Weber identificava quatro elementos: 1 – um conjunto de instituições e quadros administrativos que 2 – corporificam uma centralidade no sentido de que as relações políticas irradiam de um centro para cobrir 3 – uma área territorialmente demarcada, sobre a qual ele exerce 4 – um monopólio de poder autoritário, sustentado pelo monopólio dos meios de violência física. Via de regra a discussão do processo de construção do Estado Nacional no Brasil concentra-se no Período Imperial, pois neste período teve lugar a gênese do processo em questão, mas isto ocorre quando se pensa na formação do Estado como a criação de um determinado número de instituições, esquecendo-se do caráter das interações histórico-concretas com a sociedade civil. Assim não se pode pensar que a Primeira República correspondeu a um eclipse do processo de construção do Estado, que teria encolhido sob o predomínio das oligarquias rurais. Norberto Elias propõe que se veja a constituição dos Estados Nacionais como parte de um processo histórico-civilizatório mais amplo, de longa duração nos quais intervêm variáveis de caráter material ou ideal, assim como restrições de caráter físico, biológico e cultural. O Estado cresceu na República Velha apesar de todos os problemas, a descentralização que ocorreu foi um claro intento de melhor adequar o poder público aos interesses econômicos dominantes do período e isto pode ser verificado:
O Estado na República Velha não pode ser interpretado como uma interrupção do Estado centralizado do Império e o Governo de Vargas a partir de 1930, porque ela significou uma profunda transformação nas estruturas político-sociais brasileiras. |
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A ordem liberal oligárquica da República Velha começou a ser atacada, no campo das idéias com um pensamento político autoritário, uma crítica ao modelo liberal de 1891, apontando caminho para uma nova ordem política que seria: autoritária, centralizadora e corporativa. Este pensamento foi definido em um conjunto de obras que criticou a Constituição Republicana de 1891, que era liberal, mas não era democrática. Este pensamento se nutria da idéia básica de que o Brasil tinha tradição patriarcal e centralizadora que deveria ser reconstruída, nesta linha de pensamento a República tinha vindo interromper este processo com uma nova ordem, que segundo os pensadores brasileiros da época, era uma ordem estrangeira que não tinha nada a ver com o Brasil. Entre estes pensadores autoritários, que vinham se destacando desde a década de 10, podem ser citados: Azevedo Amaral; Francisco Campos, autor da Constituição de 1937; Oliveira Vianna, que foi o ideólogo do sindicalismo corporativo no Brasil e Alberto Torres. O modelo liberal dava ênfase ao mercado, à sociedade e não ao Estado e a característica básica do novo pensamento era de que o Estado devia ser o idealizador, cabendo à sociedade se estruturar a partir dele, ou seja, de cima para baixo. O Estado é que devia estabelecer diretrizes para encaminhar o estado social, político e econômico, devendo existir predomínio estatal sobre o mercado. Podem se considerar como principais características deste pensamento, os seguintes itens:
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