SÃO SEBASTIÃO DO RIO DE JANEIRO
UMA FUNDAÇÃO EM ETAPAS

CARTA DE JOSÉ DE ANCHIETA AO PADRE DIOGO MIRÃO



CARTA DE JOSÉ DE ANCHIETA, ESCRITA EM 9 DE JULHO DE 1565, AO PADRE DIOGO MIRÃO PROVINCIAL DE PORTUGAL.

Publicada em Anchieta, José de. Cartas, Informações, Fragmentos Históricos e Sermões – 1554-1594. Academia Brasileira de Letras – Rio de Janeiro, 1933 e Livraria Itatiaia, 1988, págs. 257-267.

Sumário

1. Após nove meses de forçadas delongas em São Vicente, onde se refaz e completa, empreende a armada de Estácio de Sã sua viagem para Guanabara. 2. Número de embarcações e sua guarnição. 3. Missa e sacramentos na Ilha de São Sebastião, chegam as canoas e navios menores à Ilha Grande, sem a Capitânea, desviada pelos ventos. 4. Assalto de índios e mamelucos a uma aldeia tamoia, onde recolhem botim de mantimentos. 5. Não podendo esperar mais tempo pelo capitão, vão concentrar-se índios e mamelucos em umas ilhas fronteiras à baía de Guanabara. 6. Série de contratempos retardam a navegação dos navios, que pretendiam juntar-se às canoas. 7. A chegada de um navio de remos e logo mais de outros quatro, a 27 de fevereiro, acalma a impaciência dos nativos, dispostos a desertar. 8. Chegada de três navios do norte com mantimentos, seguida pela capitânea, determina a invasão da terra tamoia. 9. Dia 1o de março o desembarque e a fundação do arraial, fortificado com a maior alacridade por parte dos expedicionários. 10. Cilada dos tamoios, rechaçada vitoriosamente. 11. Nova cilada e ataque contra o arraial, com magnífica vitória dos expedicionários. 12. Rendição de uma nau francesa de mercadores, sob a condição de se poder retirar para a França. 13. Tomando-lhes a pólvora e artilharia, dá-lhes Estácio de Sá licença aos franceses de seguir viagem. 14. Carta dos mercadores aos seus patrícios do Rio de Janeiro, convidando-os a se renderem. 15. Toma parte, antes de fazer-se à vela, a nau francesa em combate contra os tamoios, mais uma vez vencidos estrondosamente. 16. Seguem para a Bahia os navios de João de Andrade, levando a José de Anchieta, último dia de março. 17. Estado em que fica a cidade, onde se erguem as primeiras casas e fortificações capazes de resistir ao poder, sempre mais acumulado dos tamoios. 18. Ausentes de suas terras e famílias há mais de um ano tantos homens e a escassez de vitualhas, eis os maiores inconvenientes da situação no Rio de Janeiro. 19. Nobilitante exemplo de Estácio de Sã e obrigação do Rei Dom Sebastião de acudir em socorro de sua nova cidade.

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Carta

  1. De São Vicente se escreveu largamente o que aconteceu à armada, que da Cidade do Salvador foi povoar o Rio de Janeiro, este ano passado de 1564. Partiu no fim do ano de 1563. Agora darei conta do que mais sucedeu. Depois de passar muito tempo em se reformar a armada, de cordas, amarras e outras coisas necessárias, e esperar pelo gentio dos tupiniquins, com os quais se fizeram pazes, indo duas vezes em navios às suas povoações a os chamar, para darem ajuda contra os tamoios do Rio. Os quais, prometendo de vir, não vieram senão mui tarde e poucos, e tornaram-se logo de São Vicente, sem quererem com os nossos vir ao Rio, o qual foi a principal causa da muita detença, que a armada fez em São Vicente. E finalmente, depois de haver muitas contradições assim dos povos de São Vicente, como dos capitães e gente da armada, aos quais parecia impossível povoar-se o Rio de Janeiro com tão pouca gente e mantimentos, o Capitão-mor Estácio de Sã e o Ouvidor Geral Brás Fragoso, que sempre resistiram a todos estes encontros e contradições, determinaram de levar ao cabo esta empresa, que tinha começado. E, confiados na bondade e no poder divino, assentaram que se ficasse o ouvidor geral em São Vicente, fazendo concertar o galeão e a nau francesa que se achavam comidos de gusanos e não estavam para poder navegar, e depois se viriam com socorro ao Rio, e que o capitão-mor se passasse logo, em sua nau capitânea e alguns navios pequenos e canoas, a começar a povoação.

  2. Partiu o capitão-mor só em sua nau, aos 22 de janeiro de 1565, e no mesmo dia veio ter à Ilha de São Sebastião, que está doze ou treze léguas de São Vicente, e onde esteve esperando pelos navios pequenos, que se ficavam aviando, os quais partiram da Bertioga a 27 do mesmo mês e, ao seguinte dia, vieram ter com a capitânea. Os navios pequenos eram cinco somente, e os três deles de remos. E com eles vieram oito canoas, as quais traziam a seu cargo os mamelucos de São Vicente, com alguns índios do Espírito Santo, que o ano passado haviam ido com o capitão-mor, e alguns outros de São Vicente, dos nossos cristãos de Piratininga. De maneira que toda a gente, assim dos navios como das canoas, poderiam chegar até trezentos homens, que era, bem pouco para se poder povoar o Rio. Ao que se juntava o pouco mantimento que traziam, que se dizia poder durar dois ou três meses.

  3. Contudo isto, como digo, chegamos à Ilha de São Sebastião, onde já estava o capitão-mor, e aí dissemos missa e se confessou e comungou alguma gente. E, como comumente vinham com grande alegria e fervor, confiados que, com aquela pouca força e poder que traziam, haviam de povoar, ajudados do braço divino, e que não lhes havia de faltar o mantimento nesta ilha. Ordenou o capitão-mor que os navios de remos acompanhassem as canoas, que daí por diante entravam já na terra dos tamoios, e era necessário cada dia pousarem em terra em algumas ilhas. E, para virem mais seguras, mandou meter gente em uma canoa, que vinha por popa de um navio, dando os seus escravos que a remassem, com alguns mamelucos. E deu-lhes Nosso Senhor tão bom tempo, que sempre os navios de remos chegavam a pousa ronde elas estavam. Até entrar na Ilha Grande, onde estiveram muitos dias esperando pela capitânea, a qual teve muitos ventos contrários, sem poder aferrar pano com os navios pequenos, e foi forçada a arribar a uma ilha, com a verga do traquete quebrada, e rendido o mastro grande.

  4. Os mamelucos e índios, enfadados de esperar tanto tempo pela capitânea, e forçados da fome, que quase já não tinham mantimentos, determinaram de o ir buscar a uma aldeia de tamoios, que estava daí a duas ou três léguas. E ajudou-os Nosso Senhor, que chegaram à aldeia e queimaram-na, matando um contrário e tomando um menino vivo. E toda a mais gente se acolheu pelos matos. E com esta vitória alegres, se mudaram -todos ao outro porto da mesma Ilha Grande, onde tinham muita abundância de peixe e carne, scilicet bugios e outras caças do mato.

  5. E aí dissemos também muitas vezes missa e se confessou e comungou muita gente, aparelhando-se para as guerras, que esperavam no Rio de Janeiro. Porém, ainda que muito trabalhamos nós por nossa parte, não pudemos acabar com os índios, que esperassem pelo capitão-mor, como ele tinha ordenado. Antes, apartando-se dos navios, se vieram para dentro de uma ilha Marambaia, por entre aldeias dos tamoios, caminho do Rio de Janeiro. E, porque eram poucos e vinham, em grande perigo, pareceu bem que se viessem os mamelucos após eles e que, todos eles juntos, esperassem pelos navios numas ilhas, que estão uma légua fora da boca do Rio, às quais eles chegaram sem nenhum encontro de tamoios ou outro perigo algum.

  6. Os navios ficaram esperando pela capitânea cinco ou seis dias e, por derradeiro, parecendo-lhes que seria já passada de mar em fora e, temendo o perigo das canoas, partiram-se uma madrugada e, saindo pela boca da ilha:, viram a capitânea, que esta noite havia entrado. E assim, todos juntos, com muita alegria, começaram com próspero vento a ter vista das ilhas, onde as canoas estavam esperando. Mas não quis Nosso Senhor que chegassem aquele dia, antes, acalmando o vento e vindo depois outro contrário, junto com as grandes correntes das águas, tomou a capitânea a Ilha Grande e, no caminho, esteve em grande perigo de se perder sobre amarra em uma baixa. Os outros navios andaram com muito trabalho, ora a vela, ora a remos, dois ou três dias, para poderem tomar as ilhas e acudir às canoas, que bem adivinhavam seriam tomadas dos contrários ou tornadas a São Vicente, ou muito perto disso, como em verdade o estavam. orque, havendo já seis ou sete dias, que estavam esperando, faltando-lhes já o mantimento, comiam somente palmitos e peixes e bebiam de uma pouca de água, de que todos estavam debilitados e alguns doentes de câmaras; e, perdendo já a esperança dos navios chegarem tão cedo, determinaram de partir cada um para sua terra, scilicet, os índios do Espírito Santo com três canoas para a sua, e os mamelucos e tupiniquins para São Vicente.

  7. E, estando já assentados de efetuar esta sua determinação, viram um dos navios, que à força de braços e remos vinham já perto das ilhas, com cuja vista se alegraram e esperaram alguns dois dias mais, até que chegaram quatro, que foi aos 27 de fevereiro. E, porque nestas ilhas não havia mais que uma pouca de água e a gente era muita e as secas grandes, acabou-se e não havia mais que para beber um dia. Mas o Senhor, que tomou esta obra a seu cargo, mandou tanta chuva o dia que os navios ali chegaram, que se encheu o poço e bastou a todos, enquanto ali estiveram. E, por nos mostrar que um particular cuidado tinha de nós, permitiu que a capitânea com outro navio, que haviam arribado, não viesse tão cedo como todos queríamos. Donde nasceu tornarem-se a amotinar, não somente os índios e mamelucos, mas também alguns dos capitães dos navios, querendo entrar dentro do Rio, contra o regimento, que o capitão-mor tinha dado. E tomavam por achaque, principalmente os índios, não terem que comer e que, dentro do Rio, com os combates, que esperavam ter dos tamoios, sofreriam melhor a fome e começariam a roçar e cercar o lugar, onde estava assentado que se havia de fundar a povoação. Houve muito trabalho em os aquietar, porque em verdade o porto, em que estávamos, era muito perigo, os navios não tinham breu e faziam tanta água, que era necessário grande parte do dia dar à bomba, os índios não tinham que comer, os portugueses não tinham para lho dar, porque havia quase um mês que, com os partidos, todos andavam fracos e muito doentes. Finalmente determinaram os índios de não esperar mais que um dia. E, se a capitânea não chegasse, ou se meterem dentro do Rio, ou se irem.para suas terras, o que fora causa de grande desconsolação.

  8. Neste trabalho acudiu a Divina Providência, que logo naquele mesmo dia vimos três navios, que iam de cá da Bahia com socorro de mantimento, que era o de que armada tinha maior necessidade. E ao dia seguinte chegou a capitânea e outro navio. E assim todos juntos, em uma mesma maré, com grande alegria, entramos pela boca do Rio de Janeiro, começando já os homens de ter maior fé e confiança em Deus, que em tal tempo socorrera as suas necessidades.

  9. Logo ao seguinte dia, que foi o último de fevereiro ou primeiro de março, começaram a roçar em terra com grande fervor e cortar madeira para a cerca, sem querer saber dos tamoios, nem dos franceses. Mas como quem entrava em sua terra, se foi logo o capitão-mor a dormir em terra, dando ânimo aos outros para fazer o mesmo, ocupando-se cada um em fazer o que lhe era ordenado por ele, scilicet cortar madeira e acarretá-la aos ombros, terra, pedra e outras coisas necessárias para a cerca, sem haver nenhum que a isso repugnasse. Desde o capitão até o mais pequeno, - todos andavam e se ocupavam em semelhantes trabalhos. E, porque naquele lugar não havia mais que uma lagoa de ruim água e esta era pouca, o dia que entramos choveu tanto, que se encheu e rebentaram fontes e mas partes, de que bebeu todo o exército em abundância e durou até que se achou água boa num poço, que logo se fez. E, como esta estava em termos para se poder beber secou-se de todo a lagoa. E além disso se achou uma fontezinha num penedo, de água muito boa, com que to os s alegraram muito, e se vão firmando mais na vontade que traziam de levar aquela obra ao cabo, vendo-se tão particularmente favorecidos da Divina Providência.

  10. Os tamoios começaram logo a fazer ciladas por terra e por mar. Mas os nossos não curavam, senão de cercar-se e fortalecer-se, parecendo-lhes que não faziam pouco em se defender dentro da cerca. Mas Nosso Senhor, não, querendo que se contentassem com isto, permitiu que, ao seis de março, viessem quatro canoas dos tamoios e, fazendo uma cilada junto da cerca, tomassem um índio, que se desmandou, e, indo já muito longe com sua presa, deitaram os nossos suas canoas ao mar e perseguiram os inimigos e os fizeram saltar em terra e fugir pelos matos, deixando as canoas, arcos, flechas, espadas e quanto nelas tinham, e o índio, que escassamente tiveram tempo para o matar. Os nossos os perseguiram pelo mato um bom pedaço e, os não podendo alcançar, se tornaram, trazendo-lhes as canoas e suas armas, que haviam deixado, o que foi um grande triunfo para os nossos cobrarem ânimo e os tamoios enfraquecerem e temerem. E assim, daí por diante, não ousavam aparecer, senão de longe e muitas canoas juntas.

  11. Aos dez de março, vimos uma nau francesa, que estava légua e meia da povoação, dentro do Rio. E, ao outro dia, foi o capitão-mor sobre ela com quatro navios, deixando na cerca a gente que parecia necessária, que ainda não era acabada. E, indo já junto dela e começando a atirar de uma parte e doutra, os tamoios, que aquela cilada tinham assim ordenado, saíram de trás de uma ponta, em quarenta e oito canoas cheias de gente, e arremeteram com a cerca, com tão grande ímpeto e não havendo nela baluarte, nem casa alguma feita, em que se pudesse a gente recolher. E ajudou-nos Deus Nosso Senhor de maneira que, andando no meio do terreiro descobertos, e chovendo as flechas sobre eles, não os feriram, antes mataram alguns dos inimigos e feriram muitos. E, não contentes com isso arremeteram com eles até fora da cerca e os fizeram fugir e embarcar em suas canoas bem desbaratados.

  12. A esta vitória juntou-se a que se houve da nau francesa, a qual se entregou sem guerra aos nossos. E foi desta maneira que, vendo vir o capitão-mor as quarenta e oito canoas sobre a cerca, meteu-se em um navio de remos, por lhe acudir, deixando mandado aos outros capitães dos outros navios, que lhe ficassem em guarda da nau até pela manhã, que ele tornasse ou lhe mandasse recado. Esta noite houveram fala dos franceses e, falando-lhes um seu parente, que estava num dos navios, e dizendo-lhes que cedessem sem guerra, que o fariam de misericórdia com eles, mostraram folgar muito e disseram que eram uns pobres mercadores, que vinham ganhar sua vida, e que estavam já de caminho e levavam alguns franceses, dos que estavam em terra, para a França, que, deixando-os ir, se fiariam deles os outros. que ficavam em terra. E porque eles tinham lançado uma rageira em terra e tinham consigo trinta canoas de tamoios, para despejar a nau, se se vissem em pressa, e queimá-la com dois barris de pólvora, que tinham desfundados no convés com seus morrões, e eles acolherem-se à terra. Porque não fosse o derradeiro erro pior, que o primeiro do ano passado, que se fez em tomar outra nau e deixar mais franceses em terra, pareceu bem aos capitães, porque havia perigo na tardança e de mandar recado ao capitão-mor, dar-lhes segurança e prometer-lhes que eles alcançariam do capitão-mor que lho confirmasse e houvesse por bem. E com isto se entregaram e se vieram, porém ficando os tamoios espantados de saber como se fiavam dos portugueses. Mas os franceses, que estavam já na nau e se iam para a França com os seus, temendo que lhes não cumprissem o que prometiam, vendo chegar os nossos navios a ela, se lançaram ao mar e, a nado, fugiram à terra, à vista dos nossos, sem se seguir atrás deles.

  13. O capitão-mor e todos tiveram isto por grande mercê do Senhor, por ser este grande caminho para se desarraigarem do Rio de Janeiro os luteranos, que nele ficam, que serão até trinta homens, repartidos em diversas aldeias e todos homens baixos, que vivem com os índios selvagens. E determinou de cumprir o que seus capitães tinham prometido, ainda que teve algumas contradições de homens, que mais olham seu próprio interesse que o bem comum. Mas sendo a maior parte de parecer que os devia deixar ir em paz e que daquela maneira se fazia maior serviço a Deus e a Sua Alteza e era caminho para mais facilmente se povoar e sustentar o Rio de Janeiro, lhes deu licença que se fossem, tomando-lhes a pólvora e a artilharia, que era necessária para a cerca, deixando eles escrito aos seus que se fiassem de nós e se saíssem dentre os selvagens e se lançassem conosco, contando-lhes o bom tratamento, que dos nossos haviam recebido. Estes desta nau eram católicos, segundo as mostras que traziam, a saber: Horas de Nossa Senhora, sinais, contas e cruzes. Pelo que é de crer que lhes fez o Senhor esta misericórdia.

  14. Por que se não ficassem em terra, e se viessem com os outros, e aos nossos não dessem grandíssima opressão, favorecendo aos tamoios, determinava o capitão-mor, à minha partida de lá, que foi o derradeiro de março, a falar com os franceses, levando-lhes um seguro real de Sua Alteza e a carta de seus parentes, para poder apartá-los dentre os tamoios, para que esses não sujeitem os índios contra os portugueses, com pouca força na costa do Brasil, se não vem socorro de Sua Alteza, pelo qual todos estão esperando.

  15. Antes que a nau francesa se partisse, fizeram os tamoios outra cilada de vinte e sete canoas, aos quais ela atirou muitos e bons tiros, o que também será ajuda para eles lhes darem pouco crédito e amor e facilmente fazerem pazes com os portugueses, se forem desse Reino favorecidos,e assim ficar são o Rio. A estes saíram nove ou dez canoas e meteram esses nossos mão, com tanto pulso, que foi flechada a gente de suas aldeias, que se fez em terra para os defender. E alguns dos nossos saíram após eles e houve uma brava peleja, em que foram feridos dez ou doze dos nossos e alguns de flechadas mui perigosas, as quais, pela misericórdia de Deus, facilmente sararam. Mas dos contrários foram muitos os feridos, os quais os nossos viam levar a rasto pela praia e meter nas canoas. E assim os foram perseguindo, por mar e por terra, quase até meio caminho de suas aldeias, e tomaram-lhes uma canoa e tornaram-se com grande vitória. Glória seja ao Senhor!

  16. Ao derradeiro dia de março, parti do Rio de -Janeiro para esta cidade, por mando da santa obediência, com um homem honrado da Capitania de Ilhéus, chamado João de Andrade, o qual havia sido chamado de São Vicente pelo capitão-mor, a buscar mantimentos por estas capitanias. E, por sua boa indústria e diligência, chegou ele, como acima digo, no mesmo dia e maré, que a armada chegou de São Vicente. E de caminho levou cinco homens brancos, que resgatou dentre os tamoios, aquém do Cabo Frio, os quais se haviam perdido em um navio, que antes de João de Andrade fora mandado a buscar mantimentos. E, depois de estar no Rio todo este tempo e achando-se nos combates que tenho referido, o tornou o capitão-mor, por se fiar de sua diligência, a mandar a negociar mais mantimentos, porque a falta dele é que lhes faz uma maior guerra.

  17. Já, à minha partida, tinham feito muitas roças em derredor da cerca, plantado alguns legumes e inhames, e determinavam de ir a algumas roças dos tamoios a buscar alguma mandioca para comer e a rama dela para plantar. Tinham já feito um baluarte mui forte de taipa de pilão, com muita artilharia dentro, com quatro ou cinco guaritas de madeira e taipa de mão, todas cobertas de telha, que se trouxe de São Vicente, e faziam-se outras e outros baluartes. E os índios e mamelucos faziam já suas casas de madeira e barro, cobertas com umas palmas, feitas e cavadas como calhas e telhas, que é grande defensão contra o fogo. Os tamoios andavam-se ajuntando, para dar combate na cerca. Já havia dentro do Rio oitenta canoas. E parece-me que se ajuntariam perto de duzentas, porque de toda a terra haviam de concorrer à ilha. E dizia-se que fariam grandes mantas de madeira, para se defenderem da artilharia e abalroarem a cerca. Mas os nossos tinham já grande desejo de chegar aquela hora, porque desejavam e esperavam fazer grandes coisas pela honra de Deus e do seu rei, e lançar daquela terra os calvinos, e abrir alguma porta para a palavra de Deus entre os tamoios. Todos viviam com muita paz e concórdia. Ficava com eles o Pe. Gonçalo de Oliveira, que lhes dizia cada dia missa e confessava e comungava a muitos para glória do Senhor.

  18. O maior inconveniente, que ali havia, ultra da fome, é que estão lá muitos homens de todas as capitanias, os quais passa de ano, que lá andam, e desejam ir-se para suas casas (como é razão). Se os não deixam vir, perdem-se-lhes suas fazendas. Se os deixam vir, fica a povoação desamparada e com grande perigo de serem comidos os que lá ficarem, de maneira que por todas as partes há grandes perigos e trabalhos.

  19. E, se não fosse o capitão-mor tão amigo de Deus e tão manso e afável, que nunca descansa de noite e de dia, acudindo a uns e a outros, sendo o primeiro nos trabalhos, e terem todos grande e certa confiança que Sua Alteza proverá, tanto que souber estar já feito pé no Rio de Janeiro, que tão temeroso era ainda lá nessas partes tão remotas, e que, se agora se não leva ao cabo esta obra, e se abre mão dela, tarde ou nunca se tornará a cometer, - já creio que houveram rebentado muitos e desesperado quase todos, maxime tendo novas, que deram aqueles homens, que saíram do cativeiro dentre os tamoios, os quais souberam de uma nau francesa, que ali estava, que estava o sobrinho de Vilhagalhon, capitão que foi da antiga fortaleza, para vir ao Rio de Janeiro e São Vicente, com uma grossa armada. A cerca, que tem feita, não é mais que um pé a tomar posse da terra, sem se poder dilatar, nem sair dela sem socorro de Sua Alteza, a quem V. Reverência ddeve lembrar e incitar que logo proveja, porque ainda que é coisa pequena a que se tem feito, com tudo é maior. E basta-lhe chamar-se cidade de São Sebastião, para ser favorecida do Senhor, pelos merecimentos do glorioso mártir, e acrescentada de Sua Alteza, que lhe tem tanta devoção e obrigação.

Esta é a breve informação do Rio de Janeiro. Resta pedir a V. Reverência nos encomende e faça encomendar muito a Nosso Senhor, e tenha particular memória dos que residem e ao diante residirão naquela povoação, oferecidos a tantos perigos, da qual se espera haver de nascer muito fruto para glória do Senhor e salvação das almas.

Desta cidade do Salvador da Baía de Todos os Santos, aos 9 de julho de 1565.

Minimus Societatis Jesu

José


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