OS FRANCESES NO RIO

A TERRA DOS TUPINAMBÁS



Características dos Primitivos Habitantes da Região

Quando os portugueses chegaram à Ilha de Vera Cruz, ela não era uma terra desabitada, não era um espaço natural e sim um espaço social, mas ocupado pelos caçadores-coletores-horticultores-pescadores das raças Tupi-guarani que habitavam todo o litoral, desde o atual Ceará até Cananéia era ocupado pelos Tupis e daí até a Lagoa dos Patos dominavam os Guaranis. Esta população já existente na terra ficou conhecida como aborígines. A historiografia costuma pensar no espaço após a ocupação dos europeus sem considerar esta população e sua cultura que já existia.

Os selvagens não guerreavam para conquistar terras uns dos outros, nem tinham como objetivo enriquecer com os pertences dos vencidos ou do resgate dos prisioneiros. Guerreavam para vingar amigos e parentes presos anteriormente ou comidos. Devoravam os inimigos não para se alimentar mas com a intenção de se tornarem mais corajosos e lavavam seus filhos homens com o seu sangue.(1)

A organização social básica dos índios era a tribo, um grupo de indivíduos que habitavam uma área próxima, que falavam a mesma língua, tinham os mesmos costumes e estavam ligados uns aos outros por um forte sentimento de unidade. Tal sentimento era tão forte que os mantinha unidos mesmo quando não existia nenhum chefe ou conselheiro cuja autoridade se estendia a toda a tribo.

A guerra e a vingança constituíam instituições fundamentais nas sociedades Tupis-guaranis, todos os grupos locais vizinhos eram considerados inimigos em potencial. As atividades guerreiras nas sociedades indígenas serviam para estabelecer o domínio tribal sobre o território ocupado e estava ligada à necessidade de sacrificar vítimas humanas aos espíritos dos ancestrais míticos e parentes mortos. Ignoravam a exploração econômica do trabalho escravo, os cativos eram tratados com respeito até o sacrifício. A guerra se dava por meio e graças às relações com forças e entidades sobrenaturais e a vitória ou derrota indicavam a comunicação com o sobrenatural, tinha um caráter mágico-religioso e este tipo de caráter deve ser levado em consideração também na análise das relações indígenas com os europeus.

A guerra produzia efeitos sociais diretos uma vez que restaurava a unidade coletiva e sua autonomia e eliminava as interferências nas relações sobrenaturais e indiretamente fazia com que os atributos e as qualidades dos antepassados fossem recuperados.

Na região da Guanabara os índios denominavam-se Tupinambás, mais especificamente Tamoios. Jean de Léry, escritor francês que esteve na Guanabara, se refere a eles como Tupinambás Tupiniquins em conjunto, mas Sérgio Milliet considera que Tupinambá era o nome mais geral e Tupiniquim o nome mais particular e que cada grupo possuía duas ou três designações, sendo uma a tradicional e as outras pejorativas ou laudativas, dadas pelos vizinhos inimigos ou amigos. Daí o erro de supor-se uma existência de grande número de tribos Tupis.(2)

Tupinambás e Tupiniquins moravam em aldeias ou tabas que representavam a unidade política das sociedades indígenas, tendo cada uma delas autonomia e possuíam como autoridade mais importante o cacique ou morubixaba ou ainda o tuxaua. O formato das aldeias variava conforme a tribo, alguns construíam aldeias em forma de círculos, outros em forma de ferradura, para alguns a aldeia era composta de uma única habitação coletiva. As tabas possuíam ocas feitas de madeira, cobertas de palha sem nenhum repartimento e em cada oca moravam de trinta a quarenta índios, que dormiam em redes e andavam nus, pintados e ornamentados. As ocas eram construídas de troncos que serviam de trincheira e algumas tinham em volta um fosso cujo fundo era cheio de farpas agudas.

Por necessidade básica de sobrevivência os índios se deslocavam periodicamente para locais onde podiam encontrar recursos mais facilmente. Os mais nômades não possuíam agricultura, nem cerâmica, nem tecidos e não criavam animais domésticos.

Suas aldeias ficavam localizadas em terra férteis próximas de rios e de florestas, para facilitar a pequena agricultura, a caça e a pesca. Cultivavam roças comunitárias que pertenciam a toda a tribo, composta de mandioca, milho, abóbora, feijão, amendoim, tabaco, pimenta e árvores frutíferas. Plantavam e teciam o algodão, que usavam para fazer redes de dormir. Fabricavam cestos de cipó, panelas e vasos de barro, machados de pedra, facas de casco de tartaruga, agulhas de espinhas de peixe e diversos instrumentos musicais de sopro e percussão. Apreciavam a música e a dança, pintavam o corpo e enfeitavam-se com colares de conchas marinhas e penas coloridas de aves.

O cosmógrafo francês André Thevet elaborou um mapa da atual Ilha do Governador onde aparecem trinta e seis tabas. Jean de Léry encontrou em torno da Baía de Guanabara trinta e duas aldeias tupis entre 1550 e 1560. Posteriormente, novas listas foram feitas por missionários e cronistas portugueses, acrescentando outras povoações. As crônicas desses viajantes e outros descrevem a vida diária dos índios, sua agricultura, navegação, seus hábitos, utensílios, a maneira de caçar e de pescar, seus rituais e seus costumes de guerrear.

Viviam da caça e da pesca e encontravam na Mata Atlântica os alimentos de que necessitavam: frutas, palmito, pequenos animais. Eram habilidosos na canoagem e na pesca, se deslocavam pelo interior viajando a pé pelas trilhas da Serra do Mar.

A organização social dos Tupinambás tinha como parâmetro básico o parentesco, sustentado pelo sistema religioso que determinava os valores sociais e o comportamento de cada indivíduo. Esta organização se baseava principalmente nas tarefas relacionadas ao trabalho, divididas por idade e por sexo. As mulheres cuidavam da casa, das crianças, da roça, da fabricação de farinha, da fiação de telagens. Os homens jovens eram responsáveis pela defesa da tribo e expedições guerreiras e pela coleta dos alimentos na caça e na pesca, pela derrubada da mata e preparação da terra para o plantio, pela construção das canoas e armas, pela construção das casas, enquanto que os idosos, tanto homens quanto as mulheres ficavam sentados dando conselhos e passando aos mais jovens a sabedoria das tradições da tribo. Os índios usavam, a queimada para abrir espaços na mata que seriam usados para o cultivo de alimentos, esta prática denominada coivara é ainda muito utilizada no interior do Brasil.

Em relação à religião pode-se ressaltar que eles gostavam de rituais em que se comemorava a passagem de um grupo ou de um indivíduo da vida para a morte, além disto era comemorada a gestação, o nascimento, o casamento, a iniciação da vida adulta e outros acontecimentos. Eles não gostavam de acreditar em um deus supremo, preferiam cultuar em mitos, heróis e forças da natureza. Todas as crenças eram passadas de geração em geração. A medicina dos índios estava ligada à religião e o pajé era a pessoa mais sábia da tribo e era ele o elo de ligação entre a religião e os homens.

Os Tupis possuíam noções de astronomia pela observação das estrelas, da lua e do sol. Conheciam os hábitos dos animais, os locais que freqüentavam, as trilhas que percorriam nas matas e conheciam também as características dos frutos que usavam como alimentos. Possuíam conhecimento sobre as propriedades medicinais dos vegetais que usavam para curar doenças.

Os nativos da terra transmitiam o que sabiam através da palavra falada, apenas pela memória oral, não deixaram documentos escritos sobre sua história. Os primeiros colonizadores tentaram identificá-los dando nome a cada povo, mas criaram grande confusão, porque não conheciam bem as línguas faladas pelos índios e faziam registros confusos em relação ao grau de parentesco das diversas línguas provenientes do mesmo tronco. Das línguas faladas na costa Atlântica, o Tupinambá era predominante e foi a mais assimilada pelos franceses e portugueses.

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O Encontro dos Nativos com os Colonizadores

De início o encontro dos portugueses com os Tupinambás foi amistoso e até o Diário de Pero Lopes de Sousa pode-se ter uma visão de que os indígenas não eram inimigos dos portugueses, mas até a transformação do Brasil em Capitanias Hereditárias os navegadores franceses foram mais freqüentes em visitar o litoral do Rio de Janeiro, porque os franceses procuravam as partes menos freqüentadas pelos portugueses e tinham para isto um imenso litoral e podiam passar anos sem se encontrarem, mas o encontro um dia seria inevitável e não poderia ser amigável.(3)

Os Tupis possuíam um padrão de equilíbrio interno de relativa rigidez, sujeito a condições estáveis das relações do homem com a natureza e com os seus semelhantes. Alterações bruscas nestas condições podiam ser enfrentadas com sucesso quando as outras relações se mantinham estáveis, precisavam de tempo para a tomada de decisões entre as tentativas possíveis, que eram feitas à luz da experiência anterior. Desta forma, a presença dos europeus entre eles causou no sistema organizacional tribal efeitos desintegradores, devido à incapacidade dos índios de reajustar-se a novas situações decorrentes desta presença.

Enquanto a presença do branco era em pequeno número, ela podia ser absorvida satisfatoriamente pela organização tribal e isto ocorreu enquanto os europeus se limitaram à exploração do pau-brasil, porque o intercâmbio não exigia a permanência de grande número de estranhos nos grupos locais e os índios podiam manter sua autoridade e o seu modo de vida inalterado. Nestas condições os europeus viviam nos grupos sujeitos à vontade dos nativos ou se limitavam a ocupar as feitorias, na maior partes das vezes a permanência deles durava pouco tempo e dependiam dos aliados nativos para a sua sobrevivência no tocante a alimentação e a segurança.

Estas eram as condições mantidas nas relações dos índios com os franceses que não tinham intenção de colonizar a terra, vinham atrás do pau-brasil, das drogas do sertão, de peles de animais. O mesmo não ocorreu com os portugueses que necessitando de mão-de-obra, iniciaram o bandeirismo de apresamento, capturando índios para vender como escravos nos engenhos nordestinos.

Os franceses não estabeleceram feitorias, como os portugueses, usavam como forma de se estabelecer a infiltração entre as aldeias indígenas praticando o escambo, a permuta ou troca de produtos entre as populações nativas e os navegantes europeus, os franceses logo de início souberam aproveitá-lo para estabelecer relações de amizade com os indígenas, que depois viriam a defendê-los, mas ambos, portugueses e franceses utilizaram o escambo como forma de obtenção básica do produto colonial.

A partir de 1533, a relação com os portugueses foi se modificando e passou a ser de subordinação do nativo ao padrão de relação mais favorável ao colonizador, com sua intenção de exploração colonial da terra, de seus recursos e dos moradores nativos, isto ocorreu a partir da adoção do regime das Capitanias e da donataria.

As transformações se aprofundaram com a instalação do Governo Geral, quando se inverteu por completo o padrão de relação, dando a supremacia aos colonizadores, que passaram a implantar em suas novas terras as suas instituições sociais e o seu estilo de vida.

A permuta em espécie e a prestação de serviços aos brancos como: alojamento; alimentação; transporte de utilidades, de bagagem, de pessoas e outros; exigiu certa regularidade e intensidade, bem como um clima de segurança para os entendimentos. De início o escambo tinha como atrativo a importância dada pelos indígenas às mercadorias que lhes eram oferecidas pelos europeus, mas a partir de certo momento, o escambo fez do indígena parte integrante de um mecanismo mais complexo de interesses, que o envolvia nas rivalidades e conflitos existentes entre as nações européias pela posse das terras e de suas riquezas, levando as populações nativas a tomarem parte no processo de conquista através de suas alianças com os invasores europeus.

Florestan Fernandes(4) defende a tese e que a difusão desses elementos culturais, de início, não afetava o equilíbrio da organização tribal, porque a utilização dos objetos de troca não significava a aceitação das técnicas européias e também porque os indígenas sabiam selecionar aquilo que desejavam incorporar à sua cultura e aquilo que desejavam rejeitar, assim, os europeus não tinham um controle completo sobre a forma de impor às instituições tribais, que consideravam ”bárbaras”, os seus padrões de atitudes culturais.

Mas os portugueses conseguiram modificar os padrões de relações com os nativos, substituindo o escambo pela sua agricultura, depois de prolongada experiência com o primeiro tipo de relação que infundia no branco verdadeiro pavor diante do indígena. Esta substituição alterou completamente o centro de interesse no convívio com os índios, que passou a ser encarado como obstáculo à posse da terra e uma ameaça real à segurança da colonização. Passou-se então ao período de tensões no qual os objetivos do europeu passaram a ser alcançados apenas pela expropriação do território, pela utilização da escravidão e pela desarticulação proposital das instituições tribais, que garantiam a autonomia dos nativos, mas ameaçavam a segurança dos portugueses. A superação do escambo desembocou nas ações do tipo conquistador que levaram à subjugação das populações nativas e do domínio absoluto do europeu sobre o continente americano.

A noção de espaço do indígena não era de utilização político-administrativa, era geográfico, o espaço era demarcado pela cultura material, o índio passava de uma região para outra, para pescar e caçar, não se fixava. Esta noção entrou em conflito com a de agricultura do europeu que fixava o índio à terra e o índio tinha dificuldade de se adaptar, gerando a instabilidade, que levava à guerra justa, que tinha como objetivo adaptar o índios ao novo conceito político-administrativo. O índio se tornou o suporte da conquista de sua própria terra.

O indígena tinha uma economia para a subsistência e não sedentária, como a que se buscava com o comércio, que tinha como objetivo fazer estoque para a exportação e fixar o índio à terra.

A colonização da Baía de Guanabara foi o resultado de uma tensão de transformação de um espaço social indígena com a chegada do colonizador que queria inserir a região no Império Mercantil Português, este foi um processo obtido através da guerra explícita com a presença do Estado português, mas também por meio de alianças com os nativos. A guerra nesta região teve um componente de complexidade que foi a presença de um segundo colonizador, os franceses, que envolveu a região numa conquista que se inseria nas rivalidades existentes no continente europeu.

Tupinambás, franceses e portugueses se defrontaram pela disputa das terras da região, os franceses tiveram de enfrentar o poderio militar português, que na época não era desprezível e também a capacidade intelectual dos jesuítas, seus aliados. Os índios da região demonstraram simpatia pelos franceses hostilizando os portugueses que tiveram que lutar para manter seu domínio sobre as costas brasileiras. Valeram-se os franceses da raiva do chefe tupinambá Aimberê, que prisioneiro dos portugueses foi condenado à morte, escapou e se tornou um dos maiores inimigos da Coroa de Portugal. Outro chefe tupinambá, Cunhambebe também se destacou por ter formado uma aliança das tribos da costa, entre Bertioga e Cabo Frio incluindo ainda o Vale do Paraíba, para lutarem contra os portugueses. Cunhambebe dominou com sua marinha de canoas todos os recôncavos e angras da região.

A partir de 1550 e estendendo-se por muitos anos, a região da costa sudeste do Brasil foi palco de uma importante disputa entre dois grandes reinos europeus associados aos nativos da terra. Como diz Capistrano de Abreu:

"Durante anos ficou indeciso se o Brasil ficaria pertencendo aos Pêros (portugueses) ou aos Mair (franceses)".(5)

 

(1) - André Thevet. As Singularidades da França Antártica. Coleção Reconquista do Brasil, número 45, São Paulo, Livraria
Itatiaia Editora Ltda, Editora da Universidade de São Paulo, 1978, pág. 132.

(2) - Jean de Léry. Viagem à Terra do Brasil. Rio de Janeiro, Biblioteca do Exército Editora, 1961, nas notas de Sérgio Milliet,
pág. 165.

(3) - Capistrano de Abreu.Capítulos de História Colonial 1500-1800. Coleção Grandes Nomes do Pensamento Brasileiro da
Folha de São Paulo, São Paulo, Martins Fontes - Edição Temas Brasileiros, 2000, pág. 59.

(4) - Florestan Fernandes. "Antecedentes Indígenas: Organizações das Tribos Tupis" in HOLANDA, Sérgio Buarque
(direção). História Geral da Civilização Brasileira, 11a edição, Rio de Janeiro, BCD União dos Editores S. A., 2000, págs.
72 a 86.

(5) - Capistrano de Abreu. Capítulos de História Colonial 1500-1800. Coleção Grandes Nomes do Pensamento Brasileiro
da Folha de São Paulo, São Paulo, Martins Fontes - Edição Temas Brasileiros, 2000, pág. 59.



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